Do meu tuíter @Plinio_Zingano – “Natural” e “saudável”: eis aí dois adjetivos que me dão calafrios. O que querem, realmente, dizer? Coisa séria não é.
CANIBALISMO
Quando ouvimos a palavra “canibal”, nosso primeiro pensamento se dirige ao ser humano. Mas canibal, só pra relembrar, é o representante de qualquer espécie animal que pratica o ato de alimentar-se de outro elemento de sua própria espécie, embora nossa maior preocupação, por motivos óbvios, seja aquela primeira alternativa.
A palavra que denomina essa destruição de uma espécie praticada por seus semelhantes foi aproveitada por outras esferas do discurso além daquela propriamente biológica e, por metonímia, passou a denominar autodestruições diferentes.
Querem exemplos desse novo tipo de canibalismo referido por mim? Quando a publicidade de cerveja veicula em seus produtos a frase “aprecie com moderação” ou “se beber, não dirija”, mesmo sendo conselhos muito sensatos, está pregando o canibalismo das cervejarias. Se os conselhos fossem, realmente, levados a sério, a indústria cervejeira seria canibalizada. Ou alguém espera, de verdade, que, na Oktoberfest as pessoas bebam com a tal moderação? Moderação é um conceito bem difícil de medir. Novo exemplo: a indústria cigarreira tem passado por momentos difíceis devido à canibalização legal. Os maços de cigarros são obrigados, por lei, a trazer todo o tipo de aviso contra o seu consumo.
As duas canibalizações acima citadas não me importam muito. A do cigarro, aliás, nada. A da cerveja e de outras bebidas alcoólicas, talvez, um pouquinho. Adoro uísque, ingerido com muita moderação e jamais antes de dirigir! Porém, surgiu uma outra que me fez cair os butiás do bolso. Durante a 59ª Feira do Livro de Porto Alegre, apareceu uma campanha de doação de livros. Confesso, fiquei com medo. A gente sempre teme as coisas novas e pode, no açodamento, pensar erradamente sobre esse novo, mas, cá entre nós, pergunto: qual a lógica de uma campanha sugerindo doação de livros durante um evento cuja finalidade é vender, justamente, livros? Não lhes parece um tanto hipócrita?
Os livros das minhas poucas prateleiras têm uma característica inexistente em qualquer outra do mundo, não interessando sua qualidade literária ou técnica: fazem parte da minha vida. E isso é muito mais importante que aqueles estocados em editoras, livrarias e bibliotecas. Alguém pode chamar de egoísmo. Aceito, não me incomodo. Só quem ama a leitura entende este meu posicionamento. Meus livros não dou.
Porém, alerto os editores: isto é o começo do canibalismo de sua indústria. Se os livros começam a ser doados – e existem quantos no mundo! – o final já está escrito. Ninguém mais precisará comprar. Logo, se não houver compra, não haverá justificativa para a produção. Mais uma sugestão: deem o exemplo, começando pela doação de seus estoques. Afinal de contas, seus livros não têm o mesmo valor sentimental que os nossos.
De toda esta história de canibais soltos no meio livreiro, o mais triste foi ver o Luís Fernando Veríssimo, lá na Feira, notavelmente constrangido, apoiar a campanha, dizendo “se eles não se oporem”. Trocou as bolas do futuro do subjuntivo do verbo “opor” pelo seu infinitivo pessoal.


