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Esta postagem foi publicada em 7 de maio de 2021 e está arquivada em Miscelânea.

Carta a Paulo, por Ana Maria Baldo

CARTA A PAULO

Caro Paulo,

Novamente te escrevo. Confesso que te escrevo esperançando, mas abalada com os acontecimentos da terra Brasilis que tanto amavas. É Paulo, não posso me omitir de te dizer que as coisas por aqui têm andado difíceis. A nossa realidade tem causado desânimo e revolta. Tu não imaginas o que andam fazendo com as cores de nossa bandeira; tu não imaginas o que estão fazendo com o nosso país.

Neste 02 de maio, completaram-se 24 anos de tua partida, do dia em que nos deixaste. Retifico a frase: do dia em que nos deixaste fisicamente. Porque teu legado permanece conosco e neste ano está sendo intensamente comemorado por todos e todas aqueles e aquelas que acreditam na educação como possibilidade, na educação problematizadora e crítica; por todos e todas aqueles e aquelas que fazem das tuas palavras inspiração para luta pela transformação social.

E te digo, Paulo, que esperançar em tuas palavras têm sido o ponto de fuga para muitos de nós.

Sim, as coisas andam complicadas. Mas quero dividir contigo coisas boas também, coisas que ainda me fazem esperançar. Quero te contar de alguns grupos de pessoas que ainda me fazem crer na humanidade, no ser humano, e na solidariedade.

Recentemente comecei a participar de um grupo de estudos em que uma mulherada sem papas na língua debate machismo, racismo, homofobia, questões de gênero, imposições sociais e afins, com o intuito de promover o debate e tentar vislumbrar possibilidades de desconstrução dessa cultura patriarcal e racista que por séculos vem dominando nossa sociedade. Também há um outro grupo, com pesquisadores muito inspirados em ti, o GIPEJA. Nesse grupo pesquisadores e pesquisadoras debatem a Educação de Jovens e Adultos sob a perspectiva freireana.

Há também o Observatório da Educação do Campo, onde também se trabalha sob a tua perspectiva, visando a igualdade de direitos para a população do campo e uma educação pensada com e não para os camponeses e camponesas. Há sindicatos e associações comemorando teu centenário e partilhando de tuas ideias. Há comitês defendendo a democracia e reunindo gente de todo lugar para se unir e reforçar a luta, promovendo lives, debates e ações solidárias, nos mostrando que mesmo que eles existam, nós também temos vida e agimos.

Nas Universidades do país e fora do país também, teus ensinamentos seguem sendo referencial teórico para muitas pesquisas e intervenções na educação brasileira e internacional. Alguns difamam teu nome, mas não chega nem perto da capacidade que temos de fazer o contragolpe e te colocar de novo em evidência positiva.

Nas redes sociais, alguns que não te conhecem falam coisas que nunca pregaste ou disseste, por outro lado, há tantos e tantas que não deixaram passar em branco esses últimos meses em que comemoramos teu centenário e que lembramos com tristeza, mas esperançosos, tua partida.

Tem tanta gente boa escrevendo sobre teus pensamentos e tuas ideias. Tem tanta gente boa saindo em tua defesa que até mesmo, por vezes, esquecemos que nossa realidade é intensamente dura aos que sonham com a transformação social. Mas tem tanta gente boa, Paulo, se unindo e promovendo encontros e mais encontros para discutir tua obra e para difundir o teu legado que tu ficarias surpreso.

Quanto aos que nos fazem desanimar, Paulo, eles são muitos, ou eles parecem muitos. Parecem muitos porque ganharam voz e permissão de se manifestarem abertamente sobre seus preconceitos, seu ódio ao diferente e sua maldade. Mas nós somos mais, Paulo. Nós só estamos apequenados, angustiados e desanimados porque sentimos demais. Porque nascemos para sentir a dor do outro como se fosse a nossa, e porque nascemos para acreditar que os outros merecem tanto quanto nós igualdade, liberdade e a preservação de seus direitos e de suas vidas.

E divido isto contigo para que saibas que, apesar de separados pela geografia, nos mantemos unidos pela crença de que a história é possibilidade e não determinação, de que a educação pode transformar pessoas e que pessoas podem transformar a realidade, e de que tudo que nos ensinaste precisa ser mantido vivo e ativo em nossos corações, cada dia mais.

Confesso que por muitas vezes já desanimei, já pensei mesmo que não haveria saída. Mas quando comecei a somar todos e todas que, assim como eu, sabem da necessidade de seguirmos firmes e sentem no mais fundo de seus corações que é preciso continuar sendo resistência, percebi que não estou só. Percebi que somos muitos e muitas, e que apesar de estarmos abalados com os acontecimentos da terra Brasilis, podemos, devemos e seguiremos resistindo.

Porque assim como tu, queremos ser lembrados como alguém que amou as gentes, que lutou pelas gentes, que lutou com as gentes, e que acima de tudo, nunca deixou de ser gente! Ou como tu mesmo nos disseste em dedicatória à obra Pedagogia do Oprimido: “Esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”. Grande abraço Mestre, e obrigada por seguir nos inspirando!

Por Ana Maria Baldo
Professora, de Taquara
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