
Carta de um contaminado
Dia 10 de janeiro, domingo, um dos dias mais quentes do novo ano, uns 40 graus na rua. De tarde, e eu queimando, tomado por uma febre interna de 39 graus. Nunca tive tão alta. Segunda, 11 de janeiro, ela foi baixando.
O médico que cuida do meu pai, sabendo da minha situação, diz para eu não vacilar e ir logo ao Centro de Covid aqui da cidade. Prezo muito a opinião dele, e que bom que fui.
Dia 12 de janeiro, terça de tarde, já quase sem febre nenhuma, estou lá. Me surpreendo com o entra e sai de pessoas procurando tal lugar. Me examinam, me dão medicação, básica, e marcam o exame para sexta-feira da mesma semana, o vírus precisa achar mais espaço dentro do cliente, se mostrar mais presente, mais visível, senão o exame pode sair errado, ou seja, falhar. Enquanto isso, que eu tome a medicação dada: azitromicina, paracetamol, prednisona.
Sexta-feira, 15 de janeiro, faço finalmente o exame. Simples, rápido, indolor. Eficiente? Sei lá. Só tiram um pouco de meleca de dentro do meu nariz e dão uma semana para o resultado ficar pronto, dizendo que iriam entrar em contato comigo. Enquanto isso o máximo de isolamento possível, inclusive assinando um termo que dá multa, e até prisão, se não cumprido. Mas isso só na teoria.
Fico logo sabendo, por fontes fidedignas, que há várias pessoas, inclusive conhecidas minhas, que estão na mesma situação que eu, mas diferente de mim, estão soltas por aí e, com a maior cara de pau, frequentando lancherias, restaurantes, sorveterias e outros locais, como se não dessem a mínima para os outros. Então, se você pegar, pode até ser por culpa de uma delas. Revolta.
Nesses dias de espera, o tentar não se angustiar com a incerteza de estar ou não contaminado, de ter que me afastar dos entes familiares mais próximos, inclusive de alguns que estão muito precisados de minha ajuda, de passar o bicho para eles.
Pessoas com quem preciso me relacionar já me tratam diferente, tipo como antigamente fugíamos dos aidéticos, dos cancerosos, dos leprosos. Enviam desculpas para evitar entrar em contato comigo, mesmo eu ainda sendo só suspeito. Mas não dá para culpar alguém quando a gente também faz isso.
Como não me ligavam de volta para o resultado, quase uma semana já se passando, numa quinta-feira, dia 21 de janeiro, tomo coragem e passo o dia ligando para os telefones que me deram. Sempre ocupados, ninguém atende. No outro dia, 22 de janeiro, eu madrugo e recebo o resultado: positivo.
O mundo desaba, as pernas afrouxam, mas fazer o quê? Me sinto bem, consigo respirar bem, não tive mais febre. Tenho apetite, sinto cheiros e gostos. Dizem para eu voltar ao Centro. Volto na mesma hora achando que, enfim, vou receber o pacote completo para combater o bicho. Mas o que acontece é o seguinte: a doutora que me atendeu diz “já que estás bem, e na verdade não há tratamento para Covid (meu Deus, se uma médica diz isso, e outros médicos o mesmo, qual a razão de tanta polêmica sobre o que tomar ou não nos meios sociais, onde todo mundo virou especialista?), significa que teu poder de contaminação passou e segunda-feira já podes voltar a vida normal”. Vida normal?? E terá morrido mesmo, definitivamente, a coisa dentro de mim? O correto não seria marcar outro teste para uns dias mais adiante? Pois é.
Sabendo que o vírus pode voltar, sabendo que deixa sequelas, às vezes gravíssimas, sabendo que ataca de formas diferente cada um, que pode ir subterraneamente detonando um determinado órgão, que pode estar agora a destruir meu fígado, meu intestino, meu cérebro, enfim, que pode me levar à falência múltipla de órgãos (eu que ainda não vivi nada, que quero ver minha filha virar adulta), sabendo que agora em diante o cuidado com a minha saúde, mesmo tendo vacina, deve ser redobrado. Meu Deus, doutora? E ela simplesmente, numa calma irritante, retorna a mesma resposta: não há tratamento adequado para Covid. Ufa! Tão bom saber.
Não me conformo, consulto uma colega de confiança, que também teve coronavírus, e ela me diz que foi a mesma coisa, e que saiu do Centro de Covid e ficou pior, no caso dela, o pulmão. Obrigou-se a ir num especialista de tal órgão, que então lhe receitou outros medicamentos, e só então ela melhorou. E a tal colega me aconselhou “não fica só com a opinião do médico do Centro, é a tua vida que está em jogo, e não a dele, então vá em busca de outras opiniões”.
O problema é que os próprios médicos divergem quanto ao que usar, ou não. E aqui cabe dizer que não condeno isso ou aquilo que estão tomando, estamos no mesmo barco a afundar e o desespero faz com que nos agarremos a qualquer tábua de salvação. Quem tem o vírus sabe.
O que sei também, meus filhos, é que você deve rezar, mas rezar muito para, quem sabe, você ser um protegido, um escolhido por Deus, mas tão protegido que Ele te faça escapar dessa praga, passar impune por ela, como foi com os hebreus no Egito.
Bom, fui então fazer minhas pesquisas, aguardando em meio à polêmica o que continuar usando, tentando nisso achar um caminho do meio. Observação: como escrevi em texto anterior, o coronavírus é traiçoeiro. Mesmo que cuidemos sempre ao atravessar a rua, ele de alguma forma te alcança, te atropela. E, para encerrar, bem antes do meu contágio, quando estávamos na opção de voltar às aulas presenciais, fui fazer um check-up para ver se estava em condições para um retorno seguro, afinal estou quase na idade de risco, e ouvi “não te preocupas, tu não tens o tipo que pega o vírus”. Pois é.


