
Nesta terça-feira (30), a Casa Vidal, patrimônio histórico mais antigo de Taquara, construída em 1882, foi oficialmente inaugurada após sete anos de um minucioso processo de restauração. Erguida de forma imponente no alto da cidade, o prédio, com seus 1.500 metros quadrados, que em outros tempos de seu um século e meio foi um amálgama comercial da comunidade, passou a abrigar biblioteca, museu, arquivo histórico, espaços de exposições, salas para oficinas e uma cafeteria. Agora, o icônico casarão da Tristão volta-se para o futuro, com o objetivo de se tornar um polo cultural para toda a região.
O restauro começou em 2014, quando uma equipe multidisciplinar iniciou a elaboração do projeto arquitetônico. Segundo Cristina Schneider, gestora cultural do projeto, a obra foi dividida em três etapas.
“A primeira etapa envolveu a consolidação da parte mais antiga da casa, que estava em ruínas. Foi realizada entre 2018 e 2020 com recursos do Pró-Cultura RS e empresas patrocinadoras”, conta Cristina.
A segunda fase contemplou o telhado do “anexo C”, onde hoje funciona o museu, e foi concluída em 2020. A terceira etapa consolidou toda a infraestrutura necessária para o funcionamento do espaço cultural. O investimento foi de cerca de R$ 6 milhões.
O resultado é um centro que integra a Biblioteca Municipal Professor Rodolfo Dietschi (com acervos adulto e infantil), o Museu Histórico Municipal Adelmo Trott, o Arquivo Público Municipal Maria Eunice Müller Kautzmann, além de áreas técnicas e salas para eventos, oficinas e exposições temporárias.
“Esse é um espaço para construção de conhecimento, compartilhamento de saberes e desenvolvimento do sentimento de pertencimento”, destaca Cristina.

Para a prefeita de Taquara, Sirlei Silveira, a reabertura da Casa Vidal é um marco para a cidade.
“É a casa comercial mais antiga da região, reconstruída e pronta para receber visitantes. Esperamos que todos venham conhecer. Taquara é pioneira nesse sentido, preservando e valorizando sua história”, afirmou.
Segundo Sirlei, a Prefeitura quer manter o olhar para outros prédios que compõem o patrimônio arquitetônico da cidade.
“Temos outros prédios que precisam de atenção, como o Paço Municipal, sede da Prefeitura, que está carente de restauro. Já estamos organizando a captação de recursos para iniciar a recuperação no próximo ano. Há muitas outras obras a restaurar, e Taquara, sendo uma cidade histórica, precisa cuidar desse patrimônio que chama a atenção de toda a região”.
O funcionamento da Casa Vidal é o seguinte: o Museu, o Arquivo e a Biblioteca estarão abertos de terça a sexta-feira, das 9h às 19h, e aos sábados, das 9h às 17h. A cafeteria funcionará de terça a sexta-feira, das 9h às 20h, e aos sábados, das 11h às 17h, permanecendo fechada aos domingos e segundas-feiras.
Prédio correu risco de ser demolido
Ao comentar a trajetória que salvou e restaurou a Casa Vidal, a diretora da Promotoria de Justiça de Taquara, Ximena Cardozo Ferreira, destacou o papel do Ministério Público e da comunidade nesse processo.
“Em 2004, quando surgiram rumores de demolição da Casa Vidal, o Ministério Público abriu um inquérito civil para preservar seu valor cultural. Conversamos com a família proprietária e com os futuros adquirentes, assegurando que qualquer mudança respeitasse a história do prédio. Após a doação ao município, firmamos um compromisso para restaurar o imóvel. Hoje, concluída a obra, nosso desafio é manter a Casa Vidal viva, convocando a comunidade a usufruir desse patrimônio, que reúne biblioteca, museu, arquivo histórico e espaços culturais”.
A Casa Vidal foi tombada como patrimônio histórico municipal em 2012.

Memória afetiva
O significado do espaço vai além da arquitetura. Para Carla Inês Silveira Kohlrausch, neta de Henrique Vidal, proprietário histórico da Casa Vidal, a inauguração foi também uma reconexão emocional. Ele viveu a infância e adolescência no endereço da rua Tristão Monteiro, entre as décadas de 1960 e 1970.
“Taquara e este prédio representam muito para mim e para a minha família. Nós moramos aqui. Ali era o quarto da minha mãe, logo adiante o meu”, aponta, logo na entrada do museu. “Este lugar guarda minhas memórias, minha infância, minha adolescência. É o cenário da minha vida nessas ruas de Taquara”, disse Carla.
Ela destacou que a revitalização não devolve apenas tijolos e vitrais, mas memória e vida ao prédio: “A Casa Vidal foi da minha família. Hoje é de Taquara e de todos vocês”.

O restauro
Ao apresentar o resultado do longo processo de restauração, Cristina Schneider explicou como o trabalho preservou a história da Casa Vidal ao mesmo tempo em que incorporou elementos contemporâneos.
“Quem visita a Casa Vidal reconhece facilmente seus elementos originais: portas, janelas imponentes, vitrais coloridos, paredes de pedra e tijolo expostas, pé-direito alto e piso de madeira preservado. Descobrimos também técnicas construtivas históricas, como a alemã enxaimel”.
Segundo Cristina, as intervenções contemporâneas, como estruturas metálicas e pisos de cimento queimado, foram cuidadosamente integradas.
“Em restauro, não se imita: preserva-se a originalidade do antigo e se evidencia o novo, deixando registrado que esta revitalização pertence ao nosso tempo, ao ano de 2025”, explica.


