Se para as grandes empresas da indústria calçadista um retalho de couro ou o resto de um carretel de linha é descartável, para o casal Sergio Luiz Saletti Braga e Ana Maria estes materiais são totalmente reaproveitáveis. Moradores do bairro Morro da Cruz, os dois trabalham juntos em uma pequena fabriqueta própria, onde transformam os rejeitos das fábricas em pares de sapatos.
O espaço de madeira é pequeno, e foi construído pelas mãos do casal há três anos. Mal dá conta de acondicionar as pilhas de couro e as máquinas usadas para as confecções. Compenetrada, com a mão direita firme ao pincel de cola armazenado dentro de um vidro de café, Maria gruda partes do calçado, alcançado-as para o companheiro, que vai finalizando as peças. De frente para uma janela, ela tem vista para um vale. Entre um trabalho e outro, ambos concordam: “É o lixo que não é lixo para nós, porque conseguimos aproveitá-lo”.
Os materiais são buscados por Braga em empresas da região e do Vale dos Sinos. Como não seriam aproveitados para a produção em larga escala, os pedaços de couro, que seguiriam para o descarte, são comprados a preços módicos pelo sapateiro. Alguns também são doados. Graças ao talento de Braga e de Ana, os retalhos têm uma nova oportunidade de ganhar os pés de crianças e jovens pelo estado. Os dois concordam que há muito desperdício de matéria-prima de boa qualidade no ramo coureiro-calçadista. “O que os outros não querem, nós queremos.” Reaproveitá-los é a forma encontrada por eles de ganhar a vida e, consequentemente, ajudar a natureza.
Juntos, eles fazem tudo: desde o corte do couro, preparação, costura, colagem das solas, finalização e encaixamento dos pares. E nada se perde neste processo. As sobras são doadas para um conhecido, morador do bairro Empresa, que ainda as utiliza para confeccionar alguns calçados personalizados. Além de botinas, também produzem chinelos, sandálias e sapatilhas.
A fabriqueta não comporta uma esteira comprada por eles para a produção das peças. Sem este recurso, ambos trabalham sincronizadamente, alternando as atividades. A ajuda mútua resulta numa fabricação modesta de aproximadamente 25 pares de calçados de inverno ao dia. Os produtos são vendidos para lojistas do Paranhana e da Grande Porto Alegre ao preço de R$ 20,00 o par. No comércio, os preços dobram, e algumas lojas chegam a cobrar até R$ 50,00 pelos calçados do casal.
Autodidata do calçado, Braga descobriu sozinho os segredos de todas as etapas de confecção. Aos 17 anos, quando ainda um rapazote, ele lembra que pegava os pedaços de materiais descartados no lixão do bairro Empresa e dava os primeiros passos no setor coureiro. Sem fôrmas de moldes, assim como um alfaiate, ele tirava as medidas dos pés de cada cliente para fazer os calçados. O reaproveitamento sempre o interessou. Percebeu muito cedo as vantagens financeiras e também ambientais desta prática. Anos depois, chegou a ter uma fábrica com cerca de 80 empregados. Algumas dificuldades o fizeram optar a seguir só, de forma autônoma.
O homem simples de olhar azul tímido nunca trabalhou para empresas – a não ser nos negócios que manteve. Tudo que sabe e conhece são frutos de experiências e testes. O calçado “anda” tanto na cabeça dele, que chega a sonhar com os formatos de modelos, e, quando acorda, corre para pô-los no papel.
O mau estado dos materiais, às vezes, assusta Maria. “Eu pergunto para ele por que tanta lixarada, mas depois vejo que tudo pode ser usado.” Ela trabalha desde os 14 anos na área. No último emprego, manteve-se por nove anos, e só saiu porque desejava auxiliar o marido. Na fábrica, tinha férias, um horário certo para bater o ponto e iniciar as atividades. Agora, o serviço é a toda hora. Ainda assim, não reclama e nem tem vontade de voltar para a rotina da indústria. Em plena crise financeira mundial, os dois não conseguem dar conta dos pedidos realizados. Para o verão, já têm cerca de 20 mil pares da linha infantil encomendados – a fabricação segue a todo vapor. Querem contratar mais uma pessoa para ajudar nos serviços.
O casal está junto há quatro anos. Foi graças à igreja evangélica, a qual costumam frequentar que acabaram se aproximando. Nos carinhos e compreensão de Ana, Braga reencontrou a vida. Os materiais também são divididos com dois filhos dele – Rodrigo e Sidmar. Reaproveitam até mesmo as palmilhas e fôrmas de calçados jogados fora pelas empresas. “Pegar um calçado e ver que foi tu que fez todo ele, é muito bom”, garantem.


