Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 7 de dezembro de 2012 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Castigo

O julgamento do mensalão, ao contrário do que pressupus, irá levar para a cadeia alguns políticos corruptos. Não quero, com isso, ressaltar que este escândalo foi o “maior” da história da política brasileira, ou foi o último prego no caixão do partido que até bem pouco tempo atrás empunha a bandeira da ética. Não quero defender ou atacar lados. Não sou político o suficiente, ou não pretendo ser, para levantar uma bandeira dessa natureza, além de que não acredito que este tenha sido o suprassumo da podridão de Brasília. O julgamento transcorreu não sem influências, mas isto, com certeza, não poderia ser de outra forma: a mídia atacou para ambos os lados, o governo se calou e a oposição… bem, a oposição, deixou de existir. Os resultados das eleições municipais foram o reflexo disso. Não houve aproveitamento sobre o mensalão, ao menos não no sentido produtivo, o PT ganhou no único lugar que realmente queria e o PSDB vai ter que suar para manter o único Estado que pode alterar os quadros na próxima eleição. Mas isto é só especulação acerca do futuro, me interesso mais pelo processo que nos levou até o presente.
A condenação de políticos corruptos à cadeia não muda, ao contrário do que dizem alguns especialistas, o quadro geral da política brasileira. Este fenômeno pode ser analisado de outras formas, mas, em minha opinião, nunca sob a forma de quebra de um paradigma. Talvez os meios da “corruptância” se alastrem de formas diferentes, mais sofisticados, ou sejam, legalizados sob a forma de grandes obras públicas e escândalos paralelos, mas não acabaram por causa deste julgamento.
O quadro que tentam nos pintar é o seguinte: da próxima vez que o político estiver assinando um contrato com a sua tradicional margem de lucro, ele verá José Dirceu sob as grades de uma prisão suja, logo imaginar-se-á, também, começará a tremer e não assinará o tal contrato. Não sejamos tão ingênuos. O desvio só é desvio quando descoberto, ou seja, aqueles que defendem a ditadura, por acreditarem que os militares eram homens de honra, de caráter público ilibado, enganam-se. A mídia só não podia abrir os desvios. Ou os militares legalizam o desvio de outras formas. Não tem jeito. A vida pública possui uma moral diferente, como diria Maquiavel, ingênuos seremos se simplesmente acreditarmos na redenção por via do castigo.
O castigo, entretanto, foi uma novidade. Redentor para alguns, catastrófico para outros. A oposição ao governo federal ganhou munição, mas deve saber aproveitá-la, o governo parecia enfraquecido, mas, como vimos, soube estagnar bem o caso, o silêncio que diz tudo. Por fim, o processo que nos levou até este castigo foi novo, no sentido de Brasil, pois nos enraizamos como o país da impunidade, mas, como todo castigo, não serve como totalidade. Temos muitos outros para condenar, para mandar para a cadeia, outros tantos que ainda não foram descobertos.  O caminho é tortuoso, não tem lado (definitivamente) e não para por aqui.

Bruno Marques Schaefer
Graduando em Ciências Sociais

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