Paralelas
Esta postagem foi publicada em 3 de maio de 2013 e está arquivada em Paralelas.

Cheiro de gente

Informações bizarras e curiosas, além das tragédias do dia a dia, não faltam para nos abastecer de tudo o que nem se imagina que aconteça por este mundo afora. Pois, acreditem ou não, as redes sociais divulgaram recentemente a notícia de que um bispo criou um perfume com o “cheiro de Jesus”. Meus Deus! Tantos anos depois e alguém engarrafa em frasco o aroma mais sagrado de todos os tempos.
Se já é impossível imaginar como isso foi possível, muito mais difícil é pensar como será o tal perfume. Que cheiro é esse? Que aromas exalaria Jesus ao longo de seus dias na Terra? Seria algo celestial ou humanamente normal, como os nossos odores diários, disfarçados em banhos e cremes? Como conseguiram destilar as gotas que compõem a tal fórmula?
Deve ser algo realmente curioso sair por aí cheirando igual a Jesus, embora nenhum de nós tenha tido proximidade ou contato físico com ele para atestar tal façanha. De qualquer maneira, quem sou eu para duvidar. Vai que a fórmula estava escondida em alguma catacumba secreta e foi descoberta por arqueólogos ou pesquisadores por acaso, ao escavar possibilidades históricas. Longe de mim questionar o cheiro de Jesus. Logo eu que não uso perfume de espécie alguma.
Ainda assim, o assunto me chamou a atenção e não deixei de especular como seria o mundo de cada um de nós se pudéssemos engarrafar os cheiros das nossas lembranças. Já pensaram no calorzinho do útero materno, exalando aroma de mãe; o cheiro do leite que nos amamentou e da primeira papinha que nos preparam?
A fragrância das flores do jardim da nossa infância, das frutas das árvores que abraçamos na juventude, das lágrimas que afloraram em momentos de tristeza. O cheiro da pele adolescente que beijamos, dos cabelos que abraçamos, dos beijos que sugamos. Os aromas da nossa vida, todos ali, catalogados em vidros à disposição da nossa memória, sempre que quiséssemos matar a saudade de nós mesmos.
Lembrei agora do cheiro de umas árvores na rua principal da cidade onde nasci e passei todas as minhas férias na infância, na casa dos meus avós, que só floresciam no Natal. Elas exalavam um perfume que, sempre que sinto, me remete automaticamente àquele período da minha vida. Há outros cheiros desagradáveis que nos tiram o chão, nos arrancam da realidade. Cheiro de hospital, de doença, de sofrimento, de velório, de morte. Cheiros terríveis que atestam a nossa finitude, odores que nos sufocam de sofrimento.
Até esses deveriam ser engarrafados para nos lembrarmos do fim, da dor, da perda e do seu extremo oposto: a vida, a alegria, as conquistas. Tudo estaria ali, guardado em fórmulas personalizadas às quais só nós teríamos acesso e o direito de nos embriagar de todos os cheiros da nossa existência. E, quando ela chegasse ao fim, alguém teria a magnífica ideia de misturar todas as fragrâncias sob o nosso corpo inerte, evaporando fluidos do que fomos um dia.

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