Como é desafiador cuidar dos nossos doentes, especialmente quando são crianças que ainda nem se expressam, ou idosos que passam a depender dos familiares. Neste último ano, tenho vivenciado a enfermidade de minha mãe, hoje uma idosa de 87 anos, que foi independente a vida toda, viveu sozinha desde que se desquitou e especialmente quando os filhos saíram de casa para tocar a própria vida.
Além de cuidar de si mesma, ainda foi esteio da família. Ajudou no cuidado com os netos, socorreu a família financeiramente em muitas ocasiões, ocupou-se dos problemas que cada um atravessava – doenças, crises existenciais, desafios profissionais, amores e desamores. Aprendi com ela a não ser indiferente ao que vivem as pessoas próximas, a dividir a alegria e a assumir a responsabilidade de ter uma família.
Quando somos muito jovens, vivemos como se o amanhã não nos espreitasse, e tudo corre muito leve enquanto temos vigor e somos nós por nós mesmos. Isto muda radicalmente ao gerarmos filhos, porque quando os temos com responsabilidade, sabemos o que nos espera. Mas nunca exatamente. Podem nascer prematuros e já chegar nos pregando um susto e bastante angústia, pela fragilidade. Certamente terão doencinhas que nos irão tirar o sono, ou até doenças sérias que exigirão forças além das que pensamos ter. Poderão ter dificuldade na escola, fazer escolhas perigosas, amar as pessoas erradas, sofrer e nos levar de arrasto na sua dor. Poderão nos dar muitas alegrias também. Para estas sempre estamos preparados, e as recebemos certos de que fizemos por merecer o prêmio. Mas quando o que vem é o ônus, nos pegamos perguntando: Onde eu errei? O que fiz para merecer?
Já quando se trata dos nossos idosos, o questionamento é outro: como devolver à altura o que recebemos vida afora? A resposta a esta pergunta tenho buscado no meu dia a dia, mais recentemente. A fragilidade e a carência dos nossos idosos é a mesma de um filho pequeno, com a diferença de que muitas vezes não nos sentimos preparados para o papel de pais dos nossos pais. Tenho buscado o caminho, mas confesso que me deparei com um choque de realidade, que vejo muitos dos meus amigos enfrentando em suas famílias. E a experiência do momento me projeta para o futuro com um certo temor: como preparar o nosso próprio crepúsculo?


