Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 12 de julho de 2019 e está arquivada em Tempo Contado.

Cidade fria, por Doralino Di Souza

Cidade fria

As madrugadas nunca são iguais, isso é certo. Dentro do carro, o ar condicionado aquece, lá fora, friagem larga. Alguns santos devem estar cochilando a essa hora, já que existe gente agonizando numa ambulância apressada cruzando a avenida. O som estridente da sirene violenta a quietude. Mesmo sem querer ficamos atentos. O escarlate do outdoor acima do sobrado antigo me distrai, mas nem tanto, quero um beijo, beijo bom pra caralho. “Minha cantilena evolvente, que mata sem culpa, feito beijo diluído em suor.” Ela me olha e diz, preciso fazer xixi. Ligo o carro e ele desliza sobre os paralelepípedos até o final duma rua deserta. Ela desce. Antes de sair sorri de jeito bonito. Gosto desses pequenos detalhes com os quais ela me brinda. Permaneço no carro bebericando minha cerveja. Nos prédios as luzes estão quase todas apagadas e, talvez, alguém esteja com insônia soprando bafo quente contra a vidraça gelada, pra em seguida rabiscar preces ou palavrões.   

Ela retorna. Abre a porta. Está encolhida de frio e esfregando as mãos. Me entrega um beijo gelado e se encosta em meu peito. Ficamos quietos ouvindo nossos corações misturando-se a nossa respiração. Que merda de conforto é esse, me deixa alheio aos gritos de pavor, ao surto de dor e solidão, e fica por isso mesmo? Têm mendigos e inválidos e bêbados e loucos com frio lá fora se atracando sob marquises que lhes garantam o mínimo de proteção contra a frialdade noturna. Como posso beber aquecido sem notar tudo isso? Na cobertura do edifício mais alto um Anjo observa querendo intervir, “Maldito Livre Arbítrio” o Anjo pensa, depois bate as asas e sai voando até desaparecer no breu de nuvens. 

Ela pede pra fazer amor. Depois diz que no dia seguinte irá embarcar num ônibus e voltar pro interior de Minas Gerais. Desistiu de procurar seu pai, um conhecido locutor de rodeios daquela região que, segundo haviam lhe dito, estaria em Porto Alegre trabalhando numa emissora de rádio gospel. Faz dez anos, o pai saiu de casa e nunca mais deu notícias. Ela fica em silêncio, daí soluça murmurando que será ruim por demais admitir o fracasso perante sua mãe. Depois ela me beija.

Eu nada digo. Sei o quanto ela me fará falta, como tantas coisas têm me faltado ao longo dos anos. Todavia, não possuo nenhuma habilidade pra garantir-lhe felicidade. Ao contrário, certamente lhe faria mal. Percebo luzes surgindo das janelas dos apartamentos. O dia vai raiar. Daqui a pouco será feita a contagem dos sobreviventes. Os canais de TV irão noticiar só o conveniente, afinal, o senhor absoluto é o patrocinador. Logo ela irá embora da cidade e de mim. E eu? Pra onde vou?  No fim quem me trará maior paz? O crucifixo dependurado no espelho retrovisor ou a cerveja sobre o painel do carro?

Não sei! Não sei!  Pego com força outro beijo, beijo quente, beijo fugaz. Quero minhas mãos percorrendo esse corpo antes que algum anjo sussurre em meus ouvidos dizendo que a madrugada acabou e o faz de conta precisa recomeçar.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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