Noutro dia, encontrei na rua uma senhora que me perguntou quando eu escreveria novamente nesta coluna. Na última vez que o fiz, já beiram 2 anos (puxa, agora que percebi o quão rápido esse tempo passou!), foi após uma pequena – mas necessária – cirurgia a que me submeti antes do fechamento do nosso hospital, que foi o tema tratado na ocasião pelo bom atendimento que me prestaram.
Naquela ocasião, ao encontrar-me na rua, essa senhora surpreendeu-me ao dizer que gostara do que lera pela forma como fora escrito e por compactuar com aquilo que eu escrevera.
Claro que me senti lisonjeado: quem não se sentiria? Como já havia escrito em 4 ou 5 vezes anteriores, criei nova coragem, estufei o peito (esse estufar diminuiu a barriga momentaneamente) e decidi: lá vou eu. E cá estou, após pensar sobre o que escrever, já que bons e maus assuntos não nos faltam.
Ocorreu-me o quanto TV, jornais e revistas podem ser companhia para muitas pessoas. A espera quase inadiável pela presença em suas casas de pessoas que lhes trazem o mundo para perto, através da comunicação, lhes é fundamental.
E por quê? Certamente que assim é em alguns casos, mas ainda se fazem visitas como antigamente, pré-avisadas ou de surpresa, pelo simples prazer de fazê-las com intuito único de ver as pessoas queridas e conversar. São conversas saudáveis, desprovidas de maldades, visando ao bem-estar comum (na nova ortografia, tem hífen aí ou não?).
Sei que visitas eram corriqueiras em anos idos (acima de 10 anos, temos todos a mesma idade, pois nascemos no século passado – é o que digo a quem pergunta minha idade), ainda havendo um pouco disso hoje. Adultos num lado a conversar, rir, tornando agradável aquele momento, e crianças próximas aos olhos deles, mas distantes o suficiente para que uns não incomodassem os outros.
Lá pelas tantas, servia-se um bom café com leite, pão, broas, bolo, queijo fresco… algo quase gastronômico (hoje o famoso café colonial), mas não visto daquela forma: era pura singeleza e bom acolhimento. Sugeria até um retorno breve, por que não?
Naqueles momentos, com retratos nas paredes e imagens de santos nos cantos, reunia-se a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade. Televisão (muitos nem tinham), rua, drogas (não sabiam o que era isso)… para quê? Vivia-se a esperança… era a época do “obrigado” e “volte sempre” em vez do “valeu, a gente se vê por aí…”.
Caso não tomemos cuidado, nossas casas se transformarão em túmulos sem epitáfios, num cemitério urbano com mortos anônimos, pois o tempo passou e muitos se formaram em solidão, com bons professores: TV, DVD, computador (e nele o orkut e email) para conversas virtuais sem café com leite, pão, broas, bolo, queijos frescos e os risos transformados em “hahaha, hehehe, rsrsrs, shuashuashua” Casas trancadas, porque ladrões podem levar nossas lembranças, para citar só isso.
Goste de você, se não quem gostará? Que tenham todos um bom fim de semana.
Marco Aurélio Birck
Esta postagem foi publicada em 26 de fevereiro de 2010 e está arquivada em Caixa Postal 59.


