
Conhecida por ter fundado a comunidade Zen Budista, em São Paulo, e também por orientar diversos grupos no Brasil, além de escrever uma dezena de livros, a Monja Coen R?shi foi a atração do Conexão de Ideias, realizado no Centro de Eventos da Faccat, na última sexta-feira (11). Dona do olhar meigo, voz serena e expressões firmes, ela conduziu o público a uma verdadeira imersão na programação, provocando a ação da reflexão e autoconhecimento. E foi com uma breve experiência de meditação que Coen iniciou o evento, integrando todo o público, antes de falar sobre o tema proposto: “A Ansiedade dos Tempos Atuais”. Antes de subir ao palco, a Monja atendeu à imprensa. Falou sobre a importância de discutir o assunto, explicando que até mesmo a ansiedade pode ter um viés positivo no dia a dia das pessoas.
Aspectos que desencadeiam a ansiedade
Questionada sobre as possíveis causas da ansiedade dos tempos atuais, Coen disse que percebe dois principais aspectos: a necessidade de pertencer a determinado grupo, e a necessidade de mostra-se suficiente. Explicou que a sociedade tem se mostrado muito ansiosa. Tanto que alguns autores dizem que vivemos o tempo da exaustão. Coen falou que, na busca por pertencer a determinado grupo, participar e estar ativo dentro dele, as pessoas desenvolvem a ansiedade. Esquecem que precisam de pausas. Deixam de aproveitar momentos, oportunidades, lugares e relacionamentos, preocupadas em registrar e compartilhar conteúdos, ironicamente, negligenciados. A Monja explicou o perigo de algumas ações, como às relacionadas à necessidade de se mostrar suficiente. Disse que quando uma pessoa se dedica a isso, acaba adoecendo. “O cérebro continua acelerado, mesmo quando estamos descansando, envolvido com nossas atividades e, principalmente, produtividade. Isso acaba se tornando uma doença”, disse.
Coen também falou sobre a ansiedade gerada pelo mau uso da tecnologia e da falta de equilíbrio profissional. “A tecnologia não é boa, nem má. Está aí para nos ajudar, se soubermos como usar. Mas, não sabendo, passamos a ficar mais ansiosos”. Explicou que, no mercado de trabalho, à pressão dos gestores sobre os funcionários, que acabam competindo uns com os outros para manter o emprego, especialmente em situações de crise, ou fusão de empresas – onde há a certeza de que parte do quadro de colaboradores será desligado – algumas pessoas acabam ficando ansiosas. “O medo de perder o emprego, e a própria ansiedade acaba atrapalhando o desempenho, e influenciando negativamente no processo. Eu sempre aconselho, nesses casos, que a pessoa faça o contrário. Fique tranquila. Se a demissão acontecer, certamente outras oportunidades virão. Será uma fase de recomeço.”
A ansiedade por um viés positivo: é possível?
Desmistificando o assunto, Coen afirmou que mesmo a ansiedade pode ter um lado positivo no dia a dia e na produtividade do ser humano. Disse que, sem uma medida controlada de ansiedade, nos acomodamos. “Sem controle, principalmente a busca por produtividade nos deixa doente, causa uma ansiedade que dói, sufoca. E, com a frustração, nos deprime. É quando surge a depressão. Uma falta de equilíbrio. Mas, na medida certa, a ansiedade nos movimenta, nos provoca à conquista”.
Monja explicou que uma maneira de dosar corretamente a ansiedade é saber assimilar as diferentes fases da vida. Disse que a tristeza é algo normal. Uma perda, uma frustração, acaba sendo algo negativo. “Até podemos bloquear os sentimentos, mas isso não é saudável. É preciso assumir cada fase e saber que tudo passa. Cuidar para não entrar num redemoinho e se perder. Ser negativo com relação ao mundo, às pessoas”. Aconselhou que é preciso ter consciência do que sentimos, e admitir que, em determinadas situações, precisamos de ajuda. “Precisamos desabafar, nos fortalecer. Os amigos, a família, os profissionais da saúde, são muito importantes. Inclusive, às vezes, nós perdemos a condição de buscar ajuda. Precisamos da interferência de alguém que nos faça enxergar a situação e aceitar ajuda.”
Questionada sobre como proceder para encontrar equilíbrio, Monja falou sobre a meditação. “É importante refletir sobre o sentido da vida. O que estamos fazendo aqui? O que eu posso fazer com esses breves anos da minha existência humana? Há pessoas que não pensam nisso, e de repente se deparam com situações negativas, perdas, traições, e ficam perdidas. As práticas meditativas ajudam muito nisso. Esse olhar para dentro, o silenciar e olhar para dentro, nos ajuda a identificar onde estamos, como estamos e, se desiquilibrados, como fazemos para voltar ao normal. Sabermos priorizar as coisas certas, aceitar nossa capacidade frente aos acontecimentos, e quando vamos precisar de ajuda, é o melhor caminho.”
Caminho não tão difícil de se trilhar, segundo ela. Pois, conforme a Monja, não é preciso muito tempo. Que a meditação não é o que a maioria das pessoas pensam. Não é relaxar e se desligar da realidade. Pelo contrário, qualquer pessoa pode meditar ao acordar, em cinco minutos. “Basta sentar, observar a sua respiração. Isso é presença pura. A meditação não é pensar nos afazeres, planejar o que você vai fazer durante o dia. É estar presente. Abrir a janela, apreciar o dia, a noite, o cenário. Perceber se o tempo está agradável, como a natureza funciona. Se localizar dentro dessa realidade. Ir inserindo isso na sua rotina. Aconteceu alguma coisa que te tirou do eixo, te deixou ofegante, senta um pouco, respira. Não precisa muito. Pelo contrário, especialmente para quem começa, fazer uma hora de meditação é insuportável. Deixa de ser uma coisa agradável e se torna um sacrifício. E a meditação deve ser uma coisa prazerosa de se fazer, por isso se começa aos poucos e se vai exercitando. Mas nunca deve se passar de 45 minutos.”
Como criar uma sociedade menos ansiosa
Questionada sobre o segredo de uma vida, e sociedade, menos ansiosa, Coen falou sobre atitudes. Destacou que as crianças repetem o observam, não o que ouvem. Por isso, aconselhou que é preciso encontrar um estado de equilíbrio capaz de ser visto e imitado. “O nosso grau de ansiedade, as nossas aflições, medos, angústias são transmitidas às crianças. É o que estamos sentindo, não nosso discurso, que será repetido pelos filhos”, disse.
A Monja também aconselhou aos casais que um dos primeiros passos a ser dado na construção de uma família saudável é o hábito de respeitar e amar em público, e discutir em particular. “Não discutir, brigar na frente das crianças. Temos atritos, temos, ninguém está bem o tempo todo, mas a criança não precisa presenciar os dois principais ícones da vida dela se “atacando”, depreciando um ao outro. As palavras ditas influenciam no comportamento e na personalidade dos filhos”, explicou.
Coen destacou que a ação de brigar na frente das crianças, apesar de não parecer, pode ser devastadora. “Se a mãe diz que o pai é burro, por exemplo, a criança passa a assumir isso para si, já que é muito provável que ela se pareça com o pai. O mesmo acontece com relação às coisas ditas sobre a mãe. Quando isso acontece, mesmo que inconscientemente, os pais destroem o filho. E se aconteceu, é preciso, ao menos, chamar o filho e explicar que foi um erro, que quando estamos nervosos falamos coisas que sequer são verdadeiras para provocar o outro. E cuidar para que isso não se repita”.
Sobre a vida, num aspecto mais amplo, Coen afirmou que “ela está sempre em transformação e movimento. Precisamos refletir sobre a particularidade de cada momento, sabendo absorver o que há de bom mesmo que seja no aprendizado de uma frustração. Os japoneses, mesmo com as atribulações do dia a dia, têm o hábito de reunir os amigos e familiares para contemplar a natureza, uma cerejeira em flor, e escrever poesias. Não para competir, para registrar o momento e ser grato.”


