Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 6 de dezembro de 2013 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Consciência Negra

Recentemente tivemos mais uma semana dedicada à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A semana dentro da qual está esse dia, o 20 de novembro, foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. O Dia da Consciência Negra procura ser uma data para lembrar da resistência do negro à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte de africanos para o solo brasileiro (1549).
Procura-se evitar o desenvolvimento do autopreconceito, ou seja, da inferiorização perante a sociedade, algo que hoje em dia está “Mascarado”, mas que existe ainda na sociedade.
Quando falamos em igualdade racial, não estamos falando apenas de cor, pois pelo Art. 5º da constituição todos são iguais, sem distinção de qualquer natureza, mas nossa luta é para acabar com o estereótipo de que tudo que se refere à cor negra e ao preto é visto como “ruim”, tais como o cabelo, na violência, homicídios, o serviço prestado e principalmente na história.
A história contada até hoje não é passada como ela é, pois os negros fizeram e fazem parte desde a primeira vinda de navios para o Brasil. Para se ter uma ideia, chegou a um número superior a 20% de negros nos navios, mas sempre tivemos o papel de personagens secundários, pouco lembrados e pouco citados sendo sempre um complemento indispensável das atividades na terra, na casa, na luta.
A história aprecia e faz menção a prédios históricos que são lindos, mas “nunca” tivemos uma homenagem para aqueles que “fizeram” estas obras arquitetônicas.
Outros temas debatidos pela comunidade negra e que ganham evidência são cotas universitárias e identificação de etnias.
As ações afirmativas ou sistema de cotas são certamente o assunto mais polêmico quando se trata do ingresso ao ensino superior no Brasil. As universidades têm autonomia para definir o funcionamento do sistema de cotas, por isso existem diversos modelos espalhados pelo país.
O principal motivo das cotas é para “saldar uma dívida histórica do Brasil com nossos jovens mais pobres”. A lei tem foco nos estudantes de escolas públicas, negros e índios.
Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não deve fazê-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia “na realidade”. Um dia de palestra para pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio.
Mas peço uma reflexão: na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que frequenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida). Se há poucos negros ao seu redor, me perdoe, mas você precisa “passar um dia na realidade nua e crua” antes de firmar uma posição coerente, não com as teorias (elas servem pra tudo), mas com a realidade desse país. Com nossa realidade urgente, você sairá concordando conosco, ou ao menos sem tanta convicção contra o que estamos querendo: igualdade de oportunidades ou ao menos uma chance.
Jussiê Teixeira
Analista de Sistemas e Especialista em Gestão Empresarial e diretor-geral de Assistência Social e Habitação de Taquara.

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