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Publicado em 05/11/2021 14:36 Off

CRÔNICA DO CIDADÃO DE BEM

Muito em voga nos últimos tempos, o cidadão de bem se autoexalta e se autoelogia. Ele se entende como o verdadeiro exemplo de cidadão e se vangloria de suas atitudes honestas, honrosas e corretas. Ele traz em si um amor infinito por sua pátria, defende fervorosamente a família, a moral e os bons costumes. Ele acredita ser merecedor do melhor que existe e, não raras vezes, acredita ser o único merecedor. Ele exalta os feitos de seus políticos de estimação, mesmo que estes feitos sejam profundamente vergonhosos. Ele se espelha no que há de mais preconceituoso e discriminatório para construir seus discursos machistas, racistas e homofóbicos. Ele perde seu tempo debatendo super-heróis e suas orientações sexuais; ele perde seu tempo discutindo as cores das roupas de cada gênero; ele perde seu tempo agitando as redes com suas (suas não, dos outros, mas tomadas para si) frases prontas e sem fundamentação.

O cidadão de bem tem orgulho de assim o ser, ele se orgulha e estufa o peito para assim se autointitular. Ele se sente superior aos demais cidadãos e ele se vangloria de sua ignorância como se esta fosse sabedoria da mais pura vertente. Ele tem arrombos agressivos sempre que seus ídolos e heróis são questionados ou criticados. Ele infla sua musculatura quando é fechado no trânsito e ele detesta filas de supermercado; ele detesta moradores de rua e pedintes, mas detesta também tentar entender o problema da desigualdade social. Ele ultrapassa em lugar proibido porque afinal “o mundo é dos espertos”; ele odeia a corrupção, mas ele fura a fila. Ele odeia os políticos de modo geral, é apartidário e acha que todos são “farinha do mesmo saco”, mas ele só critica os partidos de esquerda. Ele tem fúria na voz quando fala de suas crenças e se acabarem seus argumentos (que costumam ser poucos) ele destila palavrões do mais baixo calão e das mais variadas espécies. Ele adora armas de fogo, mesmo que normalmente não tenha dinheiro para comprar uma, mas ele as ama; ele acha que elas salvarão o mundo. As armas que, feitas que foram para matar, servem para salvar vidas segundo ele. Ele ama afirmar sua masculinidade e sua heterossexualidade, mas segue e tem como ídolos apenas figuras do sexo masculino. Ele ama tanto as mulheres que as quer submissas e caladas. Obviamente ele também pode ser ela, muitos dos cidadãos de bem são cidadãs de bem; que, incrivelmente, defendem pensamentos que as diminuem e as rebaixam. O cidadão de bem ou a cidadã de bem é muito defensor da família tradicional, tanto que costuma ter mais de uma. Ele discursa sobre tudo que considera correto, porém idolatra quem faz o contrário e pratica o que, semanticamente, chamaríamos de contradição, ou, hipocrisia. Talvez o título desta coluna hoje poderia ser trocado por Crônica do Hipócrita de bem!

Por Ana Maria Baldo
Professora, de Taquara
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