Cumplicidade
Quando finalmente o velho adormeceu a enfermeira chegou. Ela olhou para o homem parado, de pé, ao lado da cama e não disse nada. O homem esteve zelando pelo sono inquieto do velho nos últimos dias. O homem ouviu os gritos de dor, o choro constrangido e depois assistiu ao velho desdenhar da vida que se extinguia. E entendeu que aquilo seria perfeitamente aceitável. Era até justo fazer. Conseguiu a cumplicidade da enfermeira do turno da noite, mediante um pequeno suborno e boa dose de charme.
A enfermeira cúmplice estava agora com eles. Encarou os olhos do homem. Olhou para o velho dormindo. Depois, com aparente nervosismo, entregou a chave da porta ao homem, e arrastou do corredor para o quarto uma cadeira de rodas. Depois ela saiu apressada. Agora o resto era com ele.
O homem observou o sono de velho, o suspiro de velho, o jeito de velho. Imaginou a si próprio encontrando a vida numa ladeira abaixo. Tendo já trilhado a maior parte do caminho. Quando tudo se torna saudade esfumaçando a memória. Levemente tocou no ombro do velho, acordando-o. Num rápido abrir de olhos, o velho compreendeu: era a hora. Conteve os gemidos do corpo dolorido e se ajeitou na cama, depois sentou-se na cadeira de rodas e depois o homem saiu do quarto empurrando-a. Logo adiante entraram no elevador. Desceram no térreo e o homem seguiu por uma porta, conforme a enfermeira havia explicado. Estavam no pátio do hospital, atrás da lavanderia. Tinha ar fresco. Fazia pouco tempo havia chovido.
O velho, ansioso, resmungou para o homem. Era o sinal. O pedido. Familiares eram contra. Mas o velho insistiu no pedido até que o filho aceitou. E agora estavam ali. O homem então enfiou a mão no bolso do paletó e trouxe de lá um maço de Marlboro. Acendeu um cigarro, entregou ao velho que imediatamente o levou à boca. Depois ele acendeu um para si.
Ficaram fumando num silêncio de cumplicidade. Pai e filho em perfeita comunhão. Dane-se o diagnóstico médico, dane-se as restrições e dane-se todo o resto. Não se despediram nem lamentaram. Apenas deixaram a fumaça do cigarro sanar a aflição da ausência já sentida.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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