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Esta postagem foi publicada em 6 de julho de 2012 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Da pobreza

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Giuliana Morrone diz, no Fantástico, que “orangotangos foram nascidos”. Foram nascidos? Epa! Algo não deu certo.
Ao menos em português.

DA POBREZA

A pobreza tem sido, impiedosamente, atacada por todos os lados. Ninguém a perdoa.
Falando assim, parece que a estou transformando em algo bom. Como se, de maneira inexplicável, se tivesse tornado alvo da maldade de algum grupo, uma espécie de Gata Borralheira, sem qualquer chance diante das filhas feiosas da madrasta. Resumindo, a pobreza seria uma princesa só esperando o príncipe para ver se lhe serve o sapatinho perdido na noite do baile e, então, dar-se à luz como a maravilhosa Cinderela!
Entretanto, não é bem por aí. Quanto à pobreza, todos têm uma ideia bem delineada. Por isto, não a perdoamos. Sabemos que não é bom ser pobre. Aos pobres, todas as coisas, mesmo as mais simples facilidades, são negadas. Estranhamente, nós nos travestimos de pobres. Mas não por motivos elevados. Eu, por um sentimento cheio de irônica simplicidade e pureza (muito peculiares a mim), rotularia de humildade. Nossa cultura não admite alguém classificar-se muito positivamente, não importa em qual quesito, mesmo quando todos sabem ser uma verdade. “Rico” seria o contraponto de “pobre”. Porém, neste caso, configuraria vaidade exagerada e logo seríamos tachados com o moderno “está se achando” ou a “bolachinha mais gostosa do pacote” e outros elogios bem conhecidos de todos nós. O próprio Eike Batista, no fundo, no fundo, não se considera um rico. Pode, a muito custo, admitir que tem um dinheirinho aqui, outro acolá, mas nunca tudo aquilo alardeado por pessoas invejosas de muita imaginação.
Feitas as premissas, temos de confessar, ser pobre é uma…, bem, não é uma coisa boa. Tenho notado, porém, que, ultimamente, a pobreza adquiriu outro estátus, quase de um crime moral. Existem listas circulando por aí, pincipalmente na internete, descrevendo ações que, segundo elas, são características de miseráveis. Todas essas ações mencionam fatos, às vezes corriqueiros, sob um viés ainda mais cruel que a própria falta de meios materiais. Suas vítimas se tornaram, além de esquecidos da fortuna, motivo de gozação nacional, agindo sob o lema “coisa de pobre”. Dizer que não podemos usar o sabonete até o final porque isso é coisa de pobre, tenham a santa paciência!
Por essa razão, aqui, hoje, estou protestando contra tais bobagens. Àqueles a quem o pauperismo incomoda, a ponto de transformá-los em pessoas malvadas e intransigentes com seus semelhantes desamparados, sugiro: ajudem-nos em vez de ridicularizá-los. Com seu dinheiro todo o incômodo desaparecerá (vocês não são pobres, já vimos pelas suas manifestações!).
Eu, não tão rico quanto esses gozadores, continuarei a emendar um sabonete no outro.

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