Imagem é tudo e, cada vez mais, tudo é imagem. Não uma simples fotografia, o que até há bem pouco tempo bastava para registrar alguma coisa interessante. Economizávamos os filmes de 36 poses para fotografar analogicamente apenas o que era importante. Por razões óbvias, não podíamos desperdiçar tempo nem dinheiro, e muito menos a chance de revelar uma foto que realmente prestasse e pudesse ser mostrada aos amigos e familiares dias ou semanas depois da viagem ou do fato acontecido.
Também corríamos o risco de perder tudo ou da câmera desfocar, além de não termos a menor chance de ver antecipadamente a bela imagem que imaginávamos ter captado ou aquela que deixamos de fotografar porque terminou o filme.
Agora, assustadoramente, a tecnologia nesta área nos engole e nos massacra com novidades que nem conseguimos mais acompanhar. Tudo tem que ser transformado em imagem, e de altíssima resolução, para ver a cena, a pessoa ou o objeto em todos os detalhes, incluindo aqueles que nos desagradam totalmente ou os que encantam em macros com câmeras de zoom espetacular, que revelam até a nossa personalidade.
Ninguém mais se contenta em apenas ver ou assistir simplesmente o que está ocorrendo, seja em vídeo, fotos ou pessoalmente. O click daquele segundo qualquer se transforma, obrigatoriamente, em algo incrível, mesmo que não seja. Todos fotografam tudo e todos. E já nem lembramos mais do que era mesmo que queríamos registrar quando baixamos as centenas de imagens captadas pelos celulares, principalmente, ou câmeras digitais profissionais.
O que vale é ter o registro e saber se o zoom é bom. Bom para ampliar na tela do computador, bom para ver melhor detalhes da imagem, bom para publicar ou bom apenas para ter uma foto de alta qualidade arquivada no pen drive para nunca mais ser vista. Ocorre que o zoom se tornou, obrigatoriamente, um jeito novo de olhar a mesma coisa captada por nossos olhos, só que de maneira amplificada, espetacular, grandiosa, fantástica, sensacional, ainda que seja um simples retrato daquele ilustre desconhecido.
Nada mais escapa das lentes poderosas, sempre a postos para maximizar o que já seria belo ou feio por natureza, mas que precisa ser amplificado para uma realidade quase microscópica, invisível a olho nu. Isso rende, obviamente, imagens fantásticas, surreais, mágicas, de tudo o que nos cerca, mas me descortina um possível sentimento de insatisfação cada vez maior com o singelo, o simples, o comum, o que temos no nosso jardim, embora o do vizinho sempre pareça mais florido, ao menos nas redes sociais.
Nem o telejornal escapa mais da tal alta definição, que escancara igualmente as mazelas do dia a dia e as rugas do apresentador, a beleza da moça do tempo e aquela mancha no paletó do entrevistado. Já não basta a realidade nua e crua. Precisamos de mais zoom.
De tanta indiferença ao próximo, nessa sociedade individualista, optamos por nos afastar ainda mais, olhando à distância, por meio de lentes, o que ocorre ao nosso redor, mas sem chegar muito perto porque a realidade dói e nem sempre é o que imaginamos.
Ainda assim, acredito no zoom que nos aproxima, com ou sem lentes, nos revelando a beleza de tudo o que há neste planeta, desde uma simples folha seca caída no chão até o brilho intenso da lua. Claro que é mais fácil apreciar o que é belo, potencializado em alta resolução. Quero ver é dar um zoom nos próprios defeitos e reconhecer que não há photoshop que disfarce as nossas imperfeições e nem câmera que revele a nossa alma. Melhor que isso, só chegando bem perto, olho no olho, para ver a realidade sem filtros, com a chance de a imagem sair desfocada ou até de queimar o filme, mas sempre esperando pela revelação, que pode levar um dia, algumas semanas ou uma vida toda.


