Pela primeira vez desde que a crise nos hospitais do Rio Grande do Sul começou a se agravar, vieram a público, na semana passada, dados relacionados ao fluxo de caixa do Hospital Bom Jesus. Os números foram divulgados pelo Conselho Municipal de Saúde de Taquara. No último dia 24, houve uma reunião do órgão, em que a reportagem do Panorama solicitou dados relacionados às dificuldades do Hospital. Na ocasião, membros do órgão defenderam que fossem revelados os números que o Conselho possuía.
Os dados foram repassados à reportagem pelo presidente do Conselho Municipal de Saúde, Levi Batista de Lima. Pelos números, em 2014, o Hospital só teve resultado positivo no seu fluxo de caixa em três meses do ano (fevereiro, abril e maio). Nos demais, em todos os meses, acabou tendo prejuízos. O ingresso de recursos operacionais do Hospital foi de R$ 17.263.879,00, enquanto os pagamentos para manter a operação, com fornecedores, médicos e salários, somaram R$ 20.743.476,00. Com isso, o déficit da casa de saúde alcançou R$ 3.479.597,00 no ano passado.
No primeiro semestre deste ano, o hospital alcançou um prejuízo de R$ 685.174,00, tendo resultado positivo apenas no mês de fevereiro. Os dados que o Conselho de Saúde possui de 2015 se referem ao balanço de janeiro a junho do hospital, não tendo sido contabilizados, ainda, os resultados de julho e de agosto. Nos primeiros seis meses do ano, o Hospital teve receitas de R$ 9.124.122,00 e despesas de R$ 9.809.296,00. O buraco financeiro foi coberto, em 2014, por transferências de recursos do Sistema de Saúde Mãe de Deus, prática que não vinha ocorrendo neste ano, até maio, quando a empresa precisou fazer novo aporte ao Hospital de Taquara.
Os dados do fluxo de caixa mostram queda nos repasses do governo gaúcho no final do ano passado, bem como a partir de maio deste ano. Também neste ano, a Prefeitura aumentou seus repasses ao hospital. Pelo fluxo de caixa da casa de saúde, no ano passado, a administração de Taquara destinou R$ 804 mil ao hospital, número que, só no primeiro semestre deste ano, pulou para R$ 1.277.891,00. Em 2015 o hospital viu crescer a sua receita com particulares, que, em seis meses, alcançou praticamente todo o faturamento do ano passado.
De acordo com Levi Lima, o Conselho Municipal de Saúde está acompanhando de perto a situação financeira do hospital, bem como os problemas que os atrasos provocam em relação aos atendimentos à comunidade. O presidente explicou que especialidades antes existentes no Bom Jesus foram cortadas, como é o caso de otorrinolaringologia, que tinha dois médicos. Atualmente, este tipo de atendimento é direcionado a Igrejinha, que é o município referência regional para esta especialidade. Já os atendimentos vasculares, que contavam com um especialista, também foram cortados, sendo direcionados para Porto Alegre. Na neurologia, havia um médico no hospital, especialidade que também acabou cortada. Para suprir a demanda, a Secretaria Municipal de Saúde acabou contratando um profissional. Também foi diminuído o número de profissionais à disposição na traumatologia, que antes tinha seis médicos e agora são dois. Levi pontuou que a Prefeitura, apesar de ter aumentado os repasses, não tem condições de assumir mais compromissos com o hospital, pois possui como obrigação a manutenção da rede de postos de saúde, que atualmente funciona com médicos em todas as unidades.
Quanto à atuação do Conselho frente à crise, Levi destacou que o órgão tem buscado cobrar, nas instâncias competentes, a regularização dos repasses, e atuado no sentido de buscar soluções junto ao governo do Estado.
Matéria publicada na edição impressa de 28 de agosto.


