Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 3 de julho de 2020 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

De boas intenções, a internet está cheia, por Rafael Tourinho Raymundo

De boas intenções, a internet está cheia

Ah, o Facebook… A plataforma que encurta distâncias e nos reaproxima dos conhecidos. É incrível o poder de mobilização que um simples post pode ter. Já vi amigos fazendo campanha de doação de sangue e outros publicando foto de cãozinho perdido. Alguns compartilhamentos depois, as bolsas de O+ eram coletadas e o animal, encontrado, retornava ao lar.

Certa feita, minha colega Carol Corso comprou um livro num sebo on-line. O exemplar veio com um marca-páginas que continha uma dedicatória ao antigo proprietário, com data de 1986. Curiosa para descobrir a identidade dos envolvidos, ela contou o caso em seu perfil e pediu auxílio. A história viralizou até a Paraíba, onde o tal Wellington foi localizado e pôde reaver a relíquia pessoal, esquecida entre as páginas de uma obra de Davi Arrigucci.

Talvez a esperança de um final feliz semelhante tenha motivado a autora desta publicação. Há a imagem de um casal e uma legenda explicando que a fotografia foi supostamente achada na rodoviária de Porto Alegre. Estaria escrito “Pai e mãe – 1955” no verso. Ao fim, um chamado à ação: “Vamos ver se as redes sociais ajudam a devolver a foto à pessoa que a perdeu. Certamente terá um elevado valor sentimental”.

Os retratados eram George e Lorraine McFly, personagens do filme De Volta Para o Futuro. Não existia foto perdida. Era gozação. Muita gente matou a charada nos comentários do post, mas nem todo mundo entendeu.

Ainda que a ideia original tenha sido fazer graça, o mesmo não se pode dizer de todos os mais de 2,1 mil usuários que compartilharam o conteúdo. Uma parcela aproveitava para continuar a piada. Os demais, porém, tinham o objetivo genuíno e inocente de colaborar para a fotografia chegar a seu dono. Acessei alguns desses perfis. Eram homens e mulheres de idades variadas, muitos deles tementes a Deus, e que gostavam de registrar momentos felizes com a família. Eram pessoas de bem que, tentando fazer uma boa ação, espalharam desinformação a seus contatos.

Imagine se, em vez de uma troça inofensiva, a mensagem falsa ensinasse uma receita de chá para curar coronavírus. Ou se denunciasse crimes cometidos por algum político da região. De repente, a mentira passa a ter consequências sérias, ameaçando a saúde da população ou a integridade de figuras públicas. É por isso que eu já disse e repito: na dúvida, não compartilhe, por melhor que seja sua intenção. De boas intenções, o Inferno está cheio. Parece a internet!

Entendo que seja difícil discernir fato de lorota. A realidade anda espetacular demais. Só na última semana, tivemos nuvem de gafanhoto ameaçando lavouras, ciclone bomba varrendo cidades do Sul do país e até ministro da Educação caindo antes mesmo da posse, pois falseou dados do currículo acadêmico. Num mundo de fatos absurdos, qualquer fábula bem contada parece verdade. Só que não é, e devemos estar atentos.

 “Mas isso significa que devo desconfiar de tudo que recebo no zap?”, você me pergunta. Sim, e vale a pena checar a autenticidade da informação. Existem diversos canais fidedignos para isso.

O Ministério da Saúde, por exemplo, lançou um site para desmentir fake News sobre a Covid-19. Basta acessar o link ao lado e procurar sobre o assunto duvidoso.

Não acredita na palavra do governo? Então busque notícias nos veículos tradicionais da imprensa. Inclusive, alguns oferecem serviços de checagem, como o Fato ou Fake, do G1, e o UOL Confere.

Pensa que a Globo é uma empresa comunista e mentirosa? Bem, há as agências de fact-checking, que seguem metodologias internacionalmente reconhecidas para analisar a veracidade do que circula na web. Alguns exemplos são Lupa e Aos Fatos. Menciono, ainda, o E-Farsas e o Boatos.org, ambos referência em desbancar inverdades.

Agora, se você tem um pé atrás com todas as fontes aqui citadas, desisto. Seja feliz acreditando em unicórnios, na Terra plana ou no currículo fajuto do ex-futuro ministro. Só não me envie correntes cheias de boas intenções, nem me peça para compartilhar asneiras no Facebook.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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