O passado insiste em bater a porta. Principalmente em sonhos recorrentes. Vértices de memórias que apresentam um leve contraste em imagens transfiguradas que se equivalem numa busca ambígua. Elementos quase esquecidos ressurgem com surpreendente clareza. Sentimentos reprimidos irrompem perturbadores, com direito a hiatos que se mostram indulgentes a passagem do tempo. Uma relação determinante entre a melancolia estimulada por proféticas previsões e o silêncio que perturba. Uma mórbida volúpia é o princípio de uma estagnação. Relacionamentos outrora indispensáveis, não passam de instantâneos desbotados. O castigo imposto pelo sol deixou apenas cores mortas como pálida recordação.
Destino semelhante reservado a relações que já iniciaram anacrônicas. A textura do vazio pode ser sentida nas fotos que mergulham lentamente nas sombras proporcionadas pela escuridão que chega com o passar das horas. Tudo focado somente em uma visão derrotista de um olhar vítreo desprovido de paixão. Um eterno ciclo de erros. Ações direcionadas ao desperdício. Involuntárias ou não. O tempo caprichoso imprime o acaso em atos indeterminados. Sem livre escolha. A ilusão do livre arbítrio? Um dogma arcaico. Tal liberdade nunca é encontrada. Talvez em indivíduos egoístas privados de qualquer senso crítico. Quero, mas será que posso? Posso, mas será que devo? Talvez. A sociedade limita a autonomia? Até mesmo algumas sanções da lei castram a opção de escolhas, controlando atitudes, contestando uma suposta liberdade.
O comportamento, embora livre, segue parâmetros pré-determinados. O querer humano é ilimitado. Mas o poder é limitado, principalmente pelo corpo. Não se pode ir contra a natureza humana. Por mais que se acredite e se iluda de que a vontade é livre, a pessoa não vai conseguir ir contra si mesma. Não podemos impor algo impossível e improvável. Querer não é poder. “Se fosse livre”, resmungava o iconoclasta Henry Mencken, “continuaria a escrever e mais tarde me arrependeria”.
Marcio Renck
Esta postagem foi publicada em 23 de dezembro de 2011 e está arquivada em Caixa Postal 59.


