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Depoimento de mulher assediada por predador sexual revela padrão de perseguição

Relato de vítima expõe abordagem insistente de Ramiro Gonzaga, que usava cartas anônimas e presentes para perseguição. MP oferece apoio psicológico às vítimas
Imagem meramente ilustrativa (Foto: Unsplash/divulgação)

O Ministério Público do Rio Grande do Sul anunciou, nesta segunda-feira (5), que dará início a uma busca ativa para acolher e oferecer apoio psicológico às vítimas já identificadas pela Polícia Civil nos crimes atribuídos a Ramiro Gonzaga Barros, de 36 anos, morador de Taquara. Preso desde janeiro, ele é investigado por uma série de crimes sexuais, incluindo armazenamento de pornografia infantil, direção de cenas de pedofilia, além de abusos virtuais e físicos.

Nem só crianças estavam na mira do acusado. A reportagem da Rádio Taquara ouviu uma mulher que relatou, sob condição de anonimato, ter sido assediada por Ramiro, embora não tenha sofrido um abuso físico consumado. O caso ocorreu entre 2020 e 2021, quando a vítima, então com 27 anos, trabalhava na unidade de uma faculdade de ensino à distância em Taquara. O relato sugere um padrão de comportamento típico de stalker, com envio constante de presentes acompanhados de mensagens enigmáticas ao seu local de trabalho, que se intensificaram ao longo dos meses.

“Comecei a receber presentes no trabalho toda semana. Os presentes vinham com bilhetes anônimos e conteúdos enigmáticos do tipo: ‘toc, toc, toc… Sabe quem é?’”, contou a vítima.

Ela relata que tentou rastrear a origem dos presentes, entrando em contato com os estabelecimentos responsáveis pelas entregas, mas o remetente nunca foi revelado. A identidade de Ramiro só veio à tona quando ele próprio a procurou pelo WhatsApp, rompendo o anonimato que mantinha até então.

“Eu perguntei quem era e como havia conseguido meu número, e ele não disse. Falei que ia atrás de descobrir e ele, então, falou quem era. Entrei nas redes sociais e vi que era casado, então o bloqueei.”

Mesmo bloqueado, o assédio continuou. Uma semana depois, ela recebeu outro presente, um açaí, e voltou a ser procurada.

“Ele disse que sabia onde eu ia e o que eu fazia no dia a dia. Falei que iria fazer um B.O, então ele nunca mais me incomodou”, lembra.

Método

A mulher diz que, à época, não registrou boletim de ocorrência por não perceber a gravidade do que estava enfrentando, mas hoje se arrepende da decisão. Ela afirma que o comportamento de Ramiro era meticuloso e premeditado.

“Ele é bastante persuasivo. Provavelmente estudou meu perfil pelas redes sociais, porque sabia exatamente o que eu gostava e o tipo de conversa que me despertaria interesse. Não parece ser uma pessoa impulsiva, mas alguém que analisa, estuda para agir premeditadamente.”

Com medo, ela passou a tomar precauções.

“Pedi para uma pessoa me buscar no trabalho, porque estava ficando com medo. Naquela época eu morava sozinha em Taquara, sem ninguém da família por perto. Voltava depois das 22h do trabalho. Ele deveria saber disso.”

Segundo ela, o número usado pelo agressor era o mesmo que ele utilizava para divulgar, no status do aplicativo de mensagens, a venda de aquários, negócio que mantinha na cidade, o que mais tarde ajudou na identificação.

“Na época eu não via a situação com a gravidade que vejo hoje. Nós nunca imaginamos que podemos estar na mira de um criminoso”, acrescenta.

Mais de 700 vítimas

O delegado Valeriano Garcia Neto confirmou que subiu para 163 o número de vítimas já identificadas. Mas, segundo levantamento inicial da Polícia Civil, este número pode ultrapassar as 700 vítimas, ao longo de mais de uma década, que teriam sido assediadas por Ramiro.

Conforme o Ministério Público, as crianças e adolescentes, assim como seus responsáveis, serão procurados pelo projeto das Centrais de Atendimento às Vítimas e Familiares de Vítimas de Crimes e Atos Infracionais. O serviço oferece espaços de acolhimento e apoio psicológico em Promotorias de Justiça de sete municípios.