
Do “Meu cinicário” – Nos tribunais, todos querem justiça! Só que Justiça é conceito muito relativo e mesmo criminosos da pior espécie jamais admitem condenação.
DESCRENÇA
Texto publicado, originalmente, em 28/04/2006 (adaptado).
Meu contato com as mentiras do mundo começou cedo! Todos começam cedo, mas falo de uma mentira detectada. Eu tinha 8 anos; no máximo, 9. Ainda hoje, passados mais de 65 anos, revejo a cena, quadro a quadro.
No rádio, ouvi a propaganda sobre umas “figurinhas mágicas da Branca de Neve”. A televisão ainda não chegara ao Rio Grande do Sul. Isso aconteceria somente em 1959. Veículo de massa, só o rádio.
Eu costumava lavar o chão da nossa casa para ganhar Cr$ 2,00 (isto mesmo, cruzeiros) e, então, ir até a banca de revistas comprar o “Pato Donald”, uma publicação nova no Brasil. O Pato era semanal; meu trabalho idem. Numa semana, porém, decidi que não haveria gibi. Eu queria as figuras mágicas da Branca. Com o dinheiro, fui à compra.
Se considerarmos meu tamanho de então, a banca ficava longe. Acho que minha mãe permitiu minha saída porque era no caminho da escola, numa esquina, das mais movimentadas de Porto Alegre. Para quem conhece a capital, situo: Avenida Farrapos com Avenida Sertório. O local era perigoso também naquela época.
Parei na frente do balcão por onde as revistas eram vendidas e pedi as tais figurinhas mágicas. Meu cérebro infantil tentava imaginar quais mágicas poderia fazer. O homem da banca, que conversava com outro no interior, passou-me um pacotinho tipo envelope, impresso com as palavras “Branca de Neve, Walt Disney”. Dei-lhe os dois cruzeiros e fiz a pergunta lógica, mas fatal: “que mágicas as figurinhas fazem?”. A conversa parou, eles me olharam sem entender. Repeti: “qual é a mágica que as figurinhas fazem?”. “Nenhuma, guri! Não incomoda!”. “Então, não quero”. “Devolve o pacote e toma teu dinheiro”. Tratava-se apenas de desenhos coloridos para colar em um álbum.
Inocente e puro, eu topara com o mundo da melíflua e sedutora linguagem publicitária. A história não resistira a uma simples pergunta. Era conversa fiada para tomar meus dois cruzeiros. E assim é com grande parte das coisas que nos são ditas, não só publicitariamente. Somos, constantemente, alvos de mentiras. Desde o envelope da Branca de Neve, duvido de tudo. Não acredito em campos floridos banhados por rios de mel. A felicidade não vem em pacotes mágicos, encontrada em bancas de esquina.
Evite os enganadores! Só porque alguém afirma algo, não significa que a coisa seja verdadeira. Aprendi isto com oito anos.
Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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