
Dias de esquecimento
Aproveitou que o sinal ficou vermelho e atravessou a rua. Estava lotada de carros naquele começo de noite. Quando atingiu a calçada deu rápida olhada por sobre o ombro. Viu dentro dos veículos pessoas agarradas aos volantes, como quem se agarra a própria vida, lhe pareceu. Achou que merecia um trago, e por conta disso, dobrou na próxima esquina, desceu a ladeira alguns metros e entrou no minúsculo bar. Cumprimentou o velho Alencar, que estava detrás do balcão, lavando copos enquanto assobiava uma canção do Noel Rosa. O velho não interrompeu o assobio nem a lavação de copos, somente fez um aceno com a cabeça. O outro sentou-se junto a primeira mesa, próximo à porta de entrada. Além daquela mesa, haviam outras duas. E algumas banquetas em frente ao balcão.
Ele não pediu nada. Encostou-se na parede de azulejos brancos e fitou o teto. De repente, sentiu-se melancólico. Nisso percebeu aquela mulher entrar pela porta e olhar pra ele. Uma fragrância nova, mas, ao mesmo tempo, nostálgica, se apossou do ambiente. Ela cruzou por ele e se dirigiu ao balcão. Pediu uma garrafa de uísque barato e dois copos. Depois veio até onde ele estava e perguntou se podia sentar. Disse que sim, sem demonstrar que o interesse poderia ir além da garrafa cor de carvalho que ela segurava junto a cintura. Enquanto enchia os copos, se apresentou. Ele fez o mesmo. Ficaram bebendo e se olhando. Longos goles em olhares de análises. Ali estavam duas pessoas com cicatrizes e chagas quase visíveis. Eles se olharam, e logo de cara souberam disso, enquanto sorviam o destilado. Então resolveram sair dali antes do término da garrafa. Pra que adiar o que é dado como certo?
Agora ele estava de volta ao seu pequeno apartamento no quarto andar do prédio decadente, só que agora tinha alguém com ele. Não beberia sozinho. Se morresse naquela madrugada, e isso poderia resolver muitas pendências, não estaria só. Cambalearam os corpos quase bêbados atrapalhados pela mobília da sala. No toca discos rodou alguns LPs e foram ensaiados alguns passos de dança. As risadas eram disfarces perfeitos pra ocultar a frustração que insistia em se mostrar, mesmo na penumbra.
Todavia, eles se amaram. E talvez as dores tenham sido atenuadas. Talvez a voz daquela mulher, bem no íntimo, soasse como a voz de outra. Ou ainda, quem sabe, ele também tenha representado o papel que deveria ser de outro. O certo é que houve entrega e esquecimento das horas. O certo é que qualquer pensamento pessimista que normalmente assolam as noites, cedeu lugar aos instintos primitivos de continuidade. E pra ele, isso importava muito. Depois daquele estranho amor, adormeceram. Lá fora a chuva miúda voltou a tamborilar contra telhados e paralelepípedos.
Acordaram no dia já bem avançado. Quase não se falaram. Ele nem lembrava o nome dela. Vestiram-se. Ela, como a esperar alguma coisa, disfarçou um tempo, depois disse tchau. Ele murmurou a resposta. Quando a porta se fechou, foi até a janela. La fora o dia não tinha nem chuva nem sol. Quase nada que pudesse testemunhar a existência de Deus. Ele pensou sobre isso e depois pensou em tomar um banho, já que o rosto era um lambuzo de choro.


