Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
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Publicado em 23/02/2018 19:21 | Atualizado em 16/03/2018 17:31 Off

A linguista canadense Sonja Lang desenvolveu uma linguagem chamada Toki Pona. São apenas 14 fonemas e 120 palavras. A ideia é reduzir o discurso ao essencial. Aí, conforme a pessoa explora esse parco vocabulário, percebe que muito do que fala cotidianamente é dispensável.

Talvez seja exagero. O Ser humano possui sentimentos complexos – e algumas culturas são mais bem-sucedidas que outras em exprimi-los. Os alemães têm schadenfreude, a satisfação ao ver um desafeto se dar mal. Ingleses passam por momentos de serendipity, quando se procura algo e encontra-se outra coisa, inesperada, mas até melhor que a primeira. Já os brasileiros sentem saudade, uma lembrança nostálgica e melancólica de algo ou alguém.

Traduzir emoções em palavras é complicado. Porém, talvez nunca se tenha feito tanto isso quanto hoje em dia. Os sites de redes sociais nos convidam a publicar o que estamos pensando, ou o que está acontecendo ao redor. Sentimo-nos impelidos a participar da conversa, mesmo quando não temos muito a acrescentar.

Fosse Toki Pona nossa língua franca, quem sabe não houvesse mais textões e lamentos gratuitos no Facebook. O léxico limitado impediria elaborações mais densas. Ou o contrário: continuaríamos recheando os feeds alheios com conteúdo que ocupasse espaço, mas não nutrisse a alma.

Falando em nutrir, a analogia com alimentação faz sentido. Em tempos passados, um grande problema mundial era a fome. Hoje, é o sobrepeso. O mesmo vale para as notícias e os posts que consumimos. A internet é fonte inesgotável de informação, tanto boa quanto ruim. Acostumados às porcarias em abundância, continuamos com apetite por conhecimento, mas sem beneficiar a saúde do nosso intelecto.

Muito disso acontece porque nem todos os autores estão preparados para escrever bem. Pudera: a palavra redigida limita a comunicação. Faltam o gestual e a entonação da oralidade para atenuar ironias e intenções subentendidas. Até se apela aos emojis. Ainda assim, convenhamos: dominar um idioma e encontrar o termo certeiro, para simplificar ideias complexas, é habilidade de poucos.

Por isso, defendo uma dieta de palavras, aos moldes da reeducação alimentar. Em vez de escolher “calorias vazias”, devemos optar por leituras que satisfaçam nossas necessidades básicas. Poucos e bons livros, servidos à la carte, valem mais que um rodízio de tweets.

Não que se deva abandonar as redes digitais. Mesmo regimes restritivos permitem alguma extravagância, de vez em quando. O segredo está em reservar menos tempo ao deleite com memes e tretas virtuais. Convém priorizar poetas e romancistas, que contam uma história tal como um chef prepara um bom prato. A experiência, assim, torna-se bem mais satisfatória. E não gastamos verbo à toa.

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