Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 20 de abril de 2018 e está arquivada em Tempo Contado.

Disritmia, por Doralino DiSouza

Disritmia

Era ainda criança quando começou a sentir medo. Quando chegou à adolescência o medo aumentou. Diariamente, mesmo que lutasse contra, na menor inquietação, o medo se agigantava. Era coração em galope aturdido, acelerando mais e mais. Medo. Sempre foi medo. Às vezes, na forma dum olhar de repulsa, ou sorriso de desdém. Às vezes, em forma de gritos e xingamentos. E o coração se mandava, queria saltar pela boca, ir além. Ele aprendera uns truques: respirava fundo e soltava o ar lentamente, como se apagasse uma vela. Também contava até dez, em contagem decrescente. Assim a pulsação ia acalmando. Mas era tanto medo. E sempre voltava.

Aprendeu nas aulas de biologia que, num coração normal, de adulto, os batimentos cardíacos variam entre 60 e 80 batidas por minuto. Mas a frequência oscila de um sujeito pra outro. Essa oscilação, ninguém sabe explicar, são meras suposições. Ele, todavia, sempre soube o motivo: era medo.

Às vezes, a vontade de usar alguma roupa, ou um sapato que achou bonito, já bastava pra fazer o coração acelerar. Imaginava os olhares de reprovação da família, vendo-o vestido daquela maneira. E o coração acelerava. Tudo era medo. Caminhar causava medo. Arrumar o cabelo causava medo. Falar. Tinha medo da sua voz, soava tão estranha. Escola, medo trabalho, medo, pai, medo, mãe, medo: Frequência cardíaca acelerada mais e mais.

Então que tomou resolução. Iria acabar de vez com aquela disritmia. Iria fazer os batimentos se aquietarem. Antes, porém, achou que merecia sentir aceleração subindo, dessa vez, por prazer. Tomou banho demorado, se perfumou, fez unhas, cuidou do cabelo demoradamente. Os batimentos cardíacos atingindo níveis inimagináveis enquanto ele se arrumava. Batom? Sim, claro. Esmalte? Certamente. Só Deus sabe o quanto ama esmalte.

Ficou lindo. Sorriu. Admirou-se com gosto. Ensaiou um diminuto desfile andando no salto alto. Sorria leveza e satisfação. Depois ficou olhando demoradamente pra imagem no espelho em sua frente. Daí, em cima do criado mudo, ao lado da carta escrita há dois dias e posta dentro do envelope de papel pardo, pegou a navalha e fez o corte rápido no pulso esquerdo. Coração acelerou. Ele sentou-se sobre a cama, as costas apoiadas na cabeceira. O braço caído. Olhos num horizonte indefinível.  Agora os batimentos mais e mais se aquietando. Quieto, enfim.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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