Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 14 de setembro de 2012 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Divagações Ébrias

Às vezes, oportunidades se apresentam e não compreendemos que aquele momento pode ser único, não sabendo o que fazer com ele. Só percebemos o estrago quando é tarde demais. Um sábado à tarde com chuva é um convite à reflexão. Ainda mais quando estamos com os sentimentos aflorados por divagações ébrias. O pesar é maior por ser um sentimento unilateral, que só permite observar, e por vezes, sonhar acordado. Fitando o vazio e imaginando travar diálogos que não conseguimos executar na prática.  Finalmente chega o momento em que a bravura ilusória proporcionada pelo álcool me permite realizar uma ligação. Somente uma desculpa para ouvir determinada voz.
Depois de ficar escutando futilidades desconexas elencadas em papel amassado, ela indaga: E tu? Como é que está? Em uma breve pausa dramática, um turbilhão de respostas veio à mente para aquela pergunta inesperada. Em vez disso, respondi qualquer bobagem. Poderia dizer, talvez, o que ela estava querendo ouvir. Mas a dúvida permanecia circulando pelo coração e mente, juntamente com o álcool. A efemeridade da coragem havia partido sem despedida. A única certeza é de que, algumas vezes, a verdade pode incomodar, enquanto que sonhar não custa nada. As últimas palavras são ditas quando encerra a lista de assuntos, que se mostrou infrutífera. Restando apenas uma despedida lacônica.
É o momento em que presto atenção na letra da música que estava tocando. Something I can’t have é o nome da canção. A letra nunca havia soado tão clara e direta anteriormente. As palavras tinham naquele momento o seu peso triplicado. Talvez pelo álcool. Talvez pelo novo dissabor vivenciado. Entre a distorção e a microfonia, uma verdade me era dita através daquela música de uma obscura banda surgida nos confins da Escócia, no exato instante em que compreendia o seu verdadeiro significado. Algo que eu não posso ter. A tarde se torna negra, e a cada minuto escurece mais.  Um eterno ciclo parece se repetir. Juntamente com os erros.
Marcio Renck

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