Há os que constroem muros. Há os que os derrubam. Há os que passam e os ignoram e outros que sequer os enxergam. Alguns audaciosos tentam uma escalada para ver o que há do outro lado, mas ainda há uma grande maioria que prefere ficar em cima do muro, qualquer muro, desde que a situação lhe seja favorável.
Os manifestos que tomaram as ruas nas últimas semanas foram legitimados, a meu ver, pelos que desejam derrubar o muro que aí está para tentar construir algo novo, não uma coisa específica, simbolizada pelo preço das passagens, e sim novas possibilidades em todos os aspectos. Sair da zona de conforto, de cima deste muro que ergueram entre o poder e o povo, especialmente a sofrida classe média, tão bem caracterizada em cartazes e vozes, caras e bocas, nas ruas de todo o país; e pelos jovens, crias das redes sociais, que decidiram pagar para ver a vida como ela é, e isso inclui se deparar cara a cara com uma ínfima minoria de vândalos infiltrados para ofuscar o movimento.
Diante das cenas e ações testemunhadas por todos nós, creio que fomos todos obrigados a sair de cima do muro, de alguma maneira, a favor ou contra. Alguns até tentaram o disfarce da indiferença, mas foram atropelados pela multidão que seguiu, todos esses dias, em frente, derrubando muros.
E são muitos os tijolos dessa parede quase indestrutível. O aumento da passagem, a corrupção, a PEC 37 e todos os demais argumentos se juntaram a algo muito maior que é a vontade de mudar estruturalmente a base política de tudo o que está aí. Sob a alegação de que não há nada de concreto a reivindicar, muitos desistiram. Os que ousaram ao menos tentar escalar para ver o que há do outro lado, já sabem do que são capazes.
Defenderei sempre o estado democrático, a existência de partidos políticos legítimos e o eterno direito à liberdade de expressão de qualquer cidadão. É preciso reconhecer, porém, que não há ato de protesto sem alguma sequela, não há rebeldia sem voz, sem contestação, sem bater de frente com o que incomoda (não confundir com atos de gente bandida que se aproveita dessas situações para saquear lojas e atear fogo em bens públicos, por favor).
Rebelar-se é muito mais do que derrubar o muro, é construir pontes para uma nova perspectiva de vida. Ser “do contra” não tem nada a ver com o estigma dos tempos da ditadura, quando eu ouvia assustadoramente a falácia de que “comunistas comiam criancinhas”. Ser “do contra” é acreditar que há outras possibilidades e sempre a chance de descartar o que não nos serve.
Por isso, qualquer manifestação me emociona e me alerta para o fato de que sempre é possível acontecer alguma coisa diferente. Quando tudo aponta para um individualismo sem precedentes na vida do ser humano, enclausurado em posts de Facebook, eis que alguém berra e leva uma multidão para as ruas. Quando eu pensava que nada mais tiraria essa galera do Twitter, eis que as palavras na tela os libertam.
Para onde vão? Em frente, transformando, mudando, porque ser “do contra” é a vocação de quem é jovem, de quem pensa, de quem quer entender o mundo, crescer, ser adulto, fugir de casa e morar sozinho. Na dúvida, experimente, desça do muro ou passe para o outro lado.
Esta postagem foi publicada em 28 de junho de 2013 e está arquivada em Paralelas.


