Caixa Postal 59
Esta postagem foi publicada em 2 de maio de 2018 e está arquivada em Caixa Postal 59.

Dona Maria Loca, por Silvio Juvenil Trein

Dona Maria Loca

Dona Maria Loca morava ali, quase no final da Rua Ingá, em uma casinha de madeira, sem pintura, portas e janelas feitas com madeira rústica: uma moradia muito simples. Se podia ver um poço com um balde para tirar água mais atrás; nos fundos do terreno, um forno de assar pão logo na saída da porta da frente, que dava para uma pequena área toda aberta de piso de cimento queimado, e um tanque de lavar roupas ao lado do forno. Assim morava Dona Maria Loca. Todos no bairro a chamavam assim. Diziam que era por ela ser uma mulher já velha,  que morara sempre ali sozinha e que tinha o hábito de cantar a falar como se estivesse com alguma visita, o que nunca se via chegar, nem sair. Não se tinha notícia de que algum parente existia e, se existisse, nunca a viera visitar. Não era muito de conversar com vizinhos e só saía para ir ao armazém, que era na outra esquina. O que se notava em Dona Maria Loca era o zelo que dava aos inúmeros vasos com flores que ela tinha espalhado por todo o terreno. Na primavera se formava ali um verdadeiro paraíso de pássaros e abelhas que vinham buscar o néctar das flores que Dona Maria Loca cultivava. Eram margaridas, azaléias, onze horas, amores-perfeitos, vários tipos de cactos com flores incríveis, e um pé de Ipê amarelo que quase cobria a pequena casinha com suas flores. Dona Maria Loca vivia ali, perdida entre seus pensamentos secretos e suas plantas, tão bem cuidadas.

No fundo do terreno, ao lado do poço, via-se um pé de laranjas, um de bergamotas, um de pêras, um de jabuticabas, de goiabas e uma pequena horta com alfaces, couves, temperos verdes, tomates e outras verduras. O mais interessante é que parecia que na casa de Dona Maria Loca tudo dava em abundância: as frutas, as verduras, os legumes, eram todos muito vistosos. Aquela morada, principalmente na primavera e na estação das frutas era um lugar lindo, bucólico, apesar do aspecto triste da velha moradora.

Eu morava mais adiante, umas duas ruas acima. Era acostumado a passar pela casa de Dona Maria Loca, tanto por necessidade, já que era o caminho mais curto pra se ir até a cidade, como pelo interesse que aquela moradia me fazia ter. Foram tantas as vezes que eu vi os meninos zombando, chamando-a de “loca, loca”, outras vezes aproveitando-se de uma distração dela para pegarem escondido frutas de seu pomar. Como diziam que ela era uma bruxa, as crianças tinham medo dela e só se aproximavam quando ela não estava ou quando saía para ir no armazém. Às vezes, ao passarem de bicicleta, gritavam: Maria Loca, Maria Loca. Ela parecia nem se importar, pois não esboçava nenhuma reação. Os pequenos caçoavam dela e os adultos a tratavam com total indiferença. Eu passava por ali com uma curiosidade de saber mais sobre aquela senhora que vivia assim, tão alheia a tudo e a todos. Foram tantas as vezes que me peguei inventando motivos para me aproximar de Dona Maria Loca, para tentar entrar um pouquinho naquele mundo que insistia em ser só dela. Talvez mostrar interesse por alguma das flores tão bonitas que brotavam de seus canteiros, quem sabe pedir emprestado um molho de temperos que eu via serem tão fartos na sua pequena horta, ou pedir uma das lindas laranjas de umbigo que nasciam no pé lá no fundo do terreno. Mas eles nunca foram postos em prática. Eu carregava o mesmo medo daquelas pessoas ou o mesmo preconceito dos adultos com relação  àquela senhora.

Certo dia uma movimentação nunca antes havida na pequena casinha chamou a atenção. Uma viatura da polícia e um carro escrito IML chegaram logo em seguida e os homens entraram apressados na morada, antes tão quieta e solitária. Pareciam quebrar aquele mundo tão único de Dona Maria Loca de uma maneira nada amável. Logo saíram carregando em uma maca coberta por um pano branco um corpo sem vida e já com um cheiro forte de cadáver. Fiquei sabendo depois que os vizinhos haviam notado que a casinha permanecera por quase dois dias fechada, o que não era normal, pois a  velha moradora tinha o costume de levantar sempre ao alvorecer e dormir logo que o sol se punha. Chamaram a polícia e então constataram que Dona Maria Loca havia morrido, já faziam três dias.

Com a morte daquela estranha pessoa  que sempre  me causava grande curiosidade, acabaram as possibilidades que eu tivera de conhecê-la mais a fundo. Foi-se a oportunidade de saber mais daquela velha senhora que povoara tantas vezes a minha imaginação. Não teria mais como explorar esse universo tão diferente que ela sempre me transmitira: um universo cheio de segredos e de tantas histórias.

No seu velório e enterro, poucas pessoas apareceram. Nenhum parente foi localizado. Fora sepultada quase que como indigente no cemitério da prefeitura, e o local de sua casinha não existe mais hoje. Ficou a lembrança de alguém que vivera uma vida tão simples e interessante. Ficou aquela imagem da casinha, das flores, frutos e de uma senhora cantando e falando alto que eu conhecera, não tão profundo quanto eu gostaria, mas que hoje me é gostoso lembrar.

Por Silvio Juvenil Trein
Morador de Taquara


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