Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 17 de junho de 2011 e está arquivada em Haiml & etc..

Dormem cedo demais os pequeninos

De vez em quando eu ainda choro. Choro quando, por exemplo, me deparo com uma foto ou noticia de um pequeno infante tão cedo retirado deste mundo. É então que nenhuma teoria metafísica que pretende justificar e dar sentido a tais tão antecipadas partidas consegue calar o meu desconforto. Essa coisa de ter que pagar por erros de outras vidas, de que chegou a hora, e essa determinada ou não por força superior, não me calam, não me conformam, mesmo que a partida de tais pequenos entes tenha sido sem dor nem tragédia. E haverá partidas sem dor ou tragédia?
Lágrimas vêm quando me deparo com rostinhos ainda tão jovens estampando necrológicos de jornais, é a infelicidade lembrando-nos do quanto pode ser impiedosa e inevitável. Perturbador também é de repente ver-se na ala cemiterial das pequenas almas. Aqueles miúdos túmulos, às vezes só uma cruzinha, dão uma tristeza, um bambolear nas pernas. E quando as frias e indiferentes pedras estão incrustadas com fotinhos? Não entendemos: cuidávamos tanto, estávamos sempre atrás, sempre atentos, mesmo assim o augúrio é uma sagaz ratazana a espreita que sabe tão bem ocultar-se de nosso controle, contornar nossos cuidados e ignorar nossas preocupações e então levar nossos pequeninos que nem ainda sabiam a que vieram.
Pesa o coração também os ver incompletos sobre o mundo, ou quando mal saem da mãe e já lhes são necessárias mil e uma intervenções médicas. Em muitos casos a culpa disso é dos genitores, mas há outras razões, sendo a própria Natureza nem sempre tão perfeita assim. E por tudo isso dá vontade de ser Deus. De novo justificam com “o ter que pagar por pecados/erros de outras vidas”. Se é preciso pagar por coisas de outras vidas, por que não é automático nos tornarmos conscientes disso, mas é preciso regressões, mensagens do além, e até morrer, para saber qual a nossa dívida? E se não sabemos, não temos resposta disso estando conscientes, como uma criança deficiente saberá que está a cumprir uma pena? Qual a validade de um existir assim para ela?
Uma família foi a um evento num barco muito requintado, que nunca havia tido problemas. Tal barco afundou, o pai perdeu-se dos familiares, em desespero os procurou, o filho de pouco meses, perdeu-o afogado. Diante de mim o rostinho de Davi, pouco mais de um ano, se abre como uma pequena flor no sufocante anúncio de sua ida, próximo a ele, o bebê morto engasgado e a pequenina sufocada no carro; noutra publicação, mesmo dia, Rafaela, 4 anos, baleada na nuca por uma vingança alheia. E continuam a ir-se os pequeninos, adormecendo cedo demais para os que os amam, roubados pelas mais inclementes maneiras e eu tento entender a razão.

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