Do meu Cinicário – Escrever é liberdade! O escritor toma fatos reais e diz que
é ficção ou toma ficção e diz que é realidade. Quer dizer, pode mentir sempre!
Entre 19 e 24 anos, por lei – prestação obrigatória do serviço militar como aluno do CPOR/PA – e posterior estágio voluntário numa unidade do Exército, como tenente, tive meus contatos iniciais com uma atividade que, mais tarde se tornaria motivo de satisfação profissional, o magistério. No curso e, depois, no estágio, ensinávamos aos soldados, não só assuntos de guerra, mas também, matérias de âmbito geral, quase uma escola de jovens e adultos. Os recrutas enquadravam-se nesta moderna classificação da educação brasileira. Já há mais de dez anos, trabalho na área.
Não denominávamos “aula” as nossas palestras. O termo era “instrução”, sempre ao ar livre. Planejávamos as instruções com muito cuidado, procurando criar situações interessantes para capturar a atenção dos 50, 60 soldados à nossa frente. Talvez, aí, tenha nascido minha simpatia por turmas grandes de alunos. Entre o distinto público, tínhamos gente entrando na universidade, e gente que jamais entrara numa escola. Os analfabetos, à noite, frequentavam a escola do quartel, no processo de alfabetização ministrado por professoras contratadas.
Uma instrução ficou marcada, indelevelmente, na minha memória. Já devo tê-la mencionado aqui em outra ocasião, mas serve bem no comentário de hoje. Era uma tarde quente! Na distribuição das tarefas, a mim coube dar aula de Geografia. O quartel tinha dois bosques. Eu e minha turma ficamos no bosque do caminho para a garagem e oficina mecânica. A sombra criava boa alternativa ao calor. Os soldados, sentados na grama, um ou outro sobre alguma pedra trazida da estradinha, ouviam minhas palavras. Tudo corria bem até a abordagem do Sistema Solar, quando mencionei a forma dos planetas e satélites e, obviamente, a da Terra. Num pulo, o soldado Menezes, tendo nas mãos a pedra sobre a qual sentava, de pé, me ameaçou: “Tu tá mentindo! Se a Terra é uma bola, como quem tá por baixo não cai dela?”. E tentou avançar sobre mim. Felizmente foi contido e acalmado.
Conto isto por ter, de novo, lido sobre pessoas contrárias à esfericidade do nosso planeta (mesmo imperfeita). É alarmante, nos tempos atuais, com todos os avanços científicos, comprovando essa esfericidade, tantos acreditarem na Terra plana, conceito medieval já atrasado diante da antiga investigação grega sobre a forma real. Novamente, manifesta-se a teoria da conspiração. Segundo muitos, esfericidade é projeto daquelas eternas “famílias que exploram o mundo”; e da NASA (quem mais?), um estúdio de efeitos cinematográficos especiais produzindo material para manter a mentira. Devemos nos cuidar! Essa turma, e outras por aí, com uma pedra na mão, podem achatar muita coisa. Inclusive nossa cabeça.
O soldado Menezes era semianalfabeto.


