
Chegamos a agosto e o noticiário insiste em falar de Covid-19. Parece até que jornalista gosta duma tragédia! Já ouvi dizerem que a mídia dá ênfase demais ao assunto, fazendo uma cobertura desproporcional para uma doença sem tanta gravidade.
Será que a preocupação com a pandemia é exagero? Pessoas continuam morrendo de outras causas, afinal. Talvez as estatísticas nos ajudem a colocar as coisas em perspectiva.
Tem que acredite que a gripe mate tanto quanto o coronavírus. Não é isso que mostram os dados do Ministério da Saúde. No ano passado, os três tipos mais comuns de Influenza vitimaram 1.122 brasileiros. O temido H1N1 foi responsável por 700 desses óbitos.
Ah, mas certamente as notícias ruins abalam o estado emocional do público. Decerto o índice de suicídios vai aumentar, né? Vamos às contas. A taxa de pessoas que tiraram a própria vida no Brasil estava em 6,1 para cada 100 mil habitantes em 2016, segundo o levantamento mais recente da Organização Mundial da Saúde. Numa população de cerca de 210 milhões de indivíduos, isso corresponde a 12.810 ocorrências em um ano. Mesmo que o número quintuplique, o que é improvável, chegaremos a algo pouco acima de 64 mil casos. Dramático, com certeza, mas abaixo das mortes por Covid-19.
Hum… É fato que o distanciamento social agravou nossa já combalida situação econômica. Com a elevação do desemprego, muitas famílias padecerão de fome, certo? Não necessariamente. Existem mecanismos para evitar o pior, como o Seguro-Desemprego, o Auxílio Emergencial e, claro, as doações de alimentos. Ainda assim, não podemos fechar os olhos diante de grupos que enfrentam uma situação de extrema miséria. Conforme as informações mais atualizadas do Ministério da Saúde, de 2017, as mortes por desnutrição chegaram a 5.653 naquele ano – e mantiveram-se num patamar similar em períodos anteriores.Pode faltar comida no prato de uma população dez vezes maior e, ainda assim, a Covid terá vitimado mais.
Vamos a outro exemplo. Câncer tem letalidade superior à do coronavírus, desde que consideremos todas as neoplasias juntas. Porém, analisando as estatísticas por tipo de enfermidade,o quadro fica bem diferente. O câncer de próstata, o mais corriqueiro entre os homens, levou 15.576 deles a óbito em 2018. Entre as mulheres, o câncer mais frequente é o de mama, que tirou a vida de 17.572 pacientes no mesmo ano. Esses são os dados mais recentes no site do INCA.
E o que dizer dos acidentes de trânsito? Continuam sendo uma das principais causas de morte no país. Segundo a administradora do seguro DPVAT, no ano passado houve 40.721 vítimas.
Ainda, um tipo de violência que preocupa são os homicídios. Tivemos 41.635 assassinatos em solo tupiniquim em 2019,pelo que aponta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Essa quantidade poderia dobrar e… Pois é, seria inferior às mortes por Covid-19.
Acho que deu para entender. A infecção pelo novo coronavírus já é uma das maiores causadoras de mortes no Brasil em 2020. Perde apenas para os problemas cardiovasculares (e os cânceres, se somarmos todos os tipos).
No momento em que entrego este texto, foram registrados 98.493 óbitos em decorrência da Covid-19. É provável que, quando você ler a coluna, o índice tenha passado de 100 mil. Repito: 100 mil vidas perdidas. Não são números. São 100 mil histórias interrompidas. São 100 mil sujeitos que tiveram família, fizeram amigos e deixaram um vazio em tantos corações. Todos se foram.
Frente à atualização diária dos quantitativos, às vezes fica difícil dimensionar o tamanho da tragédia. Nós banalizamos as notícias e acostumamo-nos ao mal-estar. Foi por isso que a Agência Lupa desenvolveu esta plataforma on-line. Você pode inserir seu endereço no site e fazer de conta que sua casa é o epicentro da epidemia. O mapa simula o que aconteceria caso as vítimas da Covid-19 morassem na mesma região.
A imagem impressiona. É como se toda a população de Taquara, Igrejinha e um pedaço de Parobé desaparecesse. Dois municípios inteiros (e um bocado além) assim, aniquilados. E, visto que a transmissão do vírus ainda está fora de controle, o raio de destruição vai aumentar. Percebe a gravidade?
Não é à toa que o noticiário insista em falar de coronavírus. Estamos cansados de ouvir relatos sobre mortes, de usar máscara no supermercado e de evitar aglomerações. No entanto, são justamente esses hábitos que nos deixam em alerta para o perigo que nos ronda.
Não existe panaceia para prevenir ou curar a doença. Ao que tudo indica, os “kits-Covid” distribuídos por certas prefeituras são ineficazes, servindo apenas para desperdiçar dinheiro público – como bem explica esta reportagem. Portanto, enquanto não houver vacina, resta-nos tomar cuidado. Lave as mãos, tape o rosto e fique em casa sempre que possível. Assim, você preserva a sua saúde e a de sua vizinhança.
Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista, de Taquara
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