Haiml & etc.
Esta postagem foi publicada em 20 de abril de 2018 e está arquivada em Haiml & etc..

E vou muito bem obrigado, por Luiz Haiml

E vou muito bem obrigado

Estou deixando devagarinho a carne, ou melhor, de comer carne. Devagarinho, pois há muito tempo atrás fiz a opção de forma radical, não funcionou. Alguns conseguem largar de vez, outros não. É preciso saber, cada um, a sua medida.

Naquela época, eu não tinha maturidade, nem consideração ou paciência para tal escolha alimentar. Havia também um dia a dia a exigir-me refeições corridas, em que não dava para ficar escolhendo comida, era preciso meter o dente no que houvesse pela frente. Mas tudo pode mudar. Estou dois anos longe de mastigar o corpo de criaturas com quatro patas. Aos poucos me afasto dos bípedes, porém, alguns seres marinhos, que não incluem os cozidos vivos, nem as versões que são postas em latas, ainda mantenho na dieta. Não é postura religiosa não. Sou um livre pensador. Aliás, nem a minha tradição luterana alemã, nem sua nêmesis, a católica, contemplam com o devido olhar esse último aspecto. Para essas tradições, a interpretação bíblica do homem como rei sobre a criação não envolve o evitar, o extirpar do ato que exige o abate do animal em terrível pânico e num pavor (trazido pela sapiência de sua morte e a dos que o rodeiam) que o faz libertar substâncias diversas em seu corpo, que depois será comigo por nós.

Mas não sou daqueles chatos que deixam de andar com quem come carne. Quem está ao meu redor tem seu próprio livre-arbítrio. Afinal, embora tenhamos, seres humanos, uma mesma básica estrutura, sei de gente que comeu muita carne e  viveu bem até uma boa velhice. Sabemos também de gente que fumou a vida inteira e igualmente alcançou tal tipo de velhice. No entanto, tenho conhecidos que padeceram  muito pelo consumo de carne, e conhecidos que se foram nas horríveis agonias  oferecidas pelo fumo.

Existir dentro de uma mentalidade social em que qualquer coisa é motivo de “assar uma carninha” – já que a carne se estabelece como um registro de poder – e que nos faz admirar partes mortas como se estivéssemos ante obras de arte num museu, viver num Estado cujo verdadeiro símbolo até remete ao crucifixo cristão (um corpo morto em uma estaca) e numa tradição “cultural” que já viciou nossa genética nas toxinas de cadáveres animais, e mesmo assim tentar diminuir o consumo de carne… é difícil, não impossível.

Enfim, não te preocupes, vivente, tu não serás menos macho, menos gaudério, por causa de uns espetos a menos, mas quem sabe, sim, serás um pouco mais saudável.

Quanto a mim, vou bem, aliás, muito bem, obrigado.

Por Luiz Haiml
Professor, de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]