Ela ainda os viu na janela, mesmo que não houvesse mais janela. Nem eles estavam mais ali, há anos. Ainda assim, os enxergou nitidamente, sorridentes, sorvendo o mate à tardinha, proseando com os vizinhos, olhando o movimento da rua.
A mesma rua onde ela agora se encontrava, em frente à casa eternizada na memória, destruída por vândalos, patrimônio demolido, à venda. Ficaram o cheiro da grama, as flores do jardim, algumas laranjeiras no fundo do quintal, repletas de frutos amarelos.
Colheu flores e frutos, deitou na grama e os viu na varanda, pensativos, a observá-la com olhar carinhoso. A suave presença amorosa a reconfortou. Reconciliou-se consigo mesma em um breve instante. De repente, aquela voz conhecida perguntou:
– Vais ficar para jantar? Hoje tem sopa.
Chegou a sentir o aroma vindo da cozinha, fogão à lenha aquecendo o alimento que só as avós sabem fazer. Sopa. Ficou para jantar, sim. Sentou-se no lugar de sempre, sob o olhar cuidadoso do avô que tingia os lábios com o vinho tinto daquele garrafão adormecido.
Os três trocaram olhares cúmplices, solidários. Tudo igual, até o pano de prato com bordas de crochê e os guardanapos ornamentando a antiga cristaleira, intacta, assim como toda a louça ali guardada. Gostava mesmo daquela xícara enorme, café fumegante, leite quente e um pão feito em casa no pratinho ao lado.
Mais uma vez, reconheceu uma voz, desta vez do avô, dizendo:
– Come mais um pouco, estás muito magrinha! Se não comer não consegues estudar, nem ler.
Lembrou aquele ensinamento, de imediato, deitada na grama, olhando os dois ali na varanda. Não era possível, mas a voz era a mesma, eles também estavam ali, observando, que coisa! Comeu tudo e mais um pouco para nunca deixar de ler, de aprender. Estudar, era isso o que os avós lhe ensinaram, desde pequena. Então, precisava comer para crescer, ser gente.
De repente, escureceu e um medo a assombrou naquele lugar, quase desconhecido sem a luz do dia que iluminava suas lembranças. O coração disparou, correu e se refugiou ali, sob as cobertas da cama reservada para ela, especialmente no período de férias. Era para lá que se deslocava quando terminavam as aulas e permanecia até março, quando era obrigada a retornar, sob protestos, para a casa dos pais.
Aquietou-se, por medo. O calor das cobertas lhe acalmou e sentiu, bem próxima, a respiração da avó, ao lado da cama, lhe cobrindo e contando histórias para dormir em paz.
E dormiu, e sonhou com eles na janela, mesmo que não houvesse mais janela. E os viu, nitidamente, rolando na grama, entre as flores coloridas e os pés de laranjeira no fundo do quintal. A casa caiada, a varanda, o mate, a rua e os vizinhos na calçada também estavam ali, assim como ela, a observar seus filhos a brincar no jardim dos antepassados que não conheceram, dos bisavós que não viram, da vida que não viveram.
Quando entrou no carro, ainda ouviu aquele grito tão familiar, quase um impedimento para partir, tão próximo, dizendo:
– Já prá dentro, crianças!
Esta postagem foi publicada em 25 de janeiro de 2013 e está arquivada em Paralelas.


