
Era uma vez no OSCAR CIMOL
Dia seis deste mês participei de jurado na 6ª Cerimônia do Oscar CIMOL

Antes, para quem não sabe, CIMOL é o Colégio Monteiro Lobato, antiga escola técnica estadual aqui da minha cidade, renomado estabelecimento de ensino que mesmo sofrendo o descaso de muitos governantes que passaram pela chefia do nosso Estado, se impôs como referência até no exterior.
Os filmes do Oscar CIMOL são entregues separadamente a cada um de nós, jurados, algumas semana antes da premiação, e na noite da mesma, momentos antes, nos reunimos para decidir os ganhadores. Tenho a honra de estar neste evento desde o primeiro.

Mas como começou o Oscar CIMOL? Há muito tempo atrás, a professora Rory Mikalauskas organizava a biblioteca de inglês da escola, para a qual adquiriu muitos exemplares com seu próprio dinheiro, ao mesmo tempo em que lecionava a matéria de língua inglesa, nesse caminho criou um projeto dentro do qual todos os três anos com os quais ela trabalhava iriam levar às telas as páginas de autores da língua inglesa.
Aos primeiros e segundos anos ela idealizou que priorizassem textos mais curtos, contos, peças, ou apenas trechos dessas obras. No entanto, os mesmos alunos, quando chegassem ao terceiro ano já estariam melhor aptos a produções maiores, traduzindo, roteirizando e filmando histórias mais longas. Com o tempo a ideia de valorizar ainda mais o trabalho dos alunos, não apenas com notas, começou a rondar a cabecinha da Rory e ela projetou, para as turmas terceiristas, o Oscar CIMOL, cujo primeiro se deu em 2013.

Até o terceiro Oscar os alunos recebiam apenas uma premiação simbólica. Como o evento decolou e as produções foram melhorando, os filmes vencedores começaram a receber prêmio em espécie, dinheiro arrecadado pelos próprios alunos através de rifas elaboradas e vendidas por eles. Cabe destacar a
parceria sempre presente, para a realização do Oscar, do professor Richard Gonzaga.
Além disso, abriram-se também mais vagas nas categorias, e ampliaram-se as categorias. Hoje são nomeados três candidatos em cada uma e os dois melhores em cada então recebem o premio em dinheiro. Atualmente temos melhor filme, ator, atriz, trilha sonora, edição, capa, figurino e roteiro.

O roteiro, porém, sendo escrito na nossa língua, é avaliado então como trabalho da disciplina de Língua Portuguesa pela professora da mesma, Gizele de Oliveira. Quanto ao júri, já tivemos nele Herbet Bender, Ramsés Farherr, agora estamos com Valquíria Alves, João Henrique Mattos, Leandro Laydner, Richard Fogaça – que deixa o CIMOL para começar outra iniciativa, mas quis ficar auxiliando no projeto, e eu. Uma interessante mistura química cinéfila que contempla as obras produzidas com todos os olhares com que precisam ser julgadas.

Falando em figurino, o pessoal foi aderindo mais ao clima e hoje se vai ao Oscar CIMOL na melhor chiqueza para se desfilar no tapete vermelho em meio ao salão sempre belamente decorado. Há apresentadores, números musicais, certo entretenimento para quebrar o gelo enquanto são exibidos trailers dos curtas feitos e espera-se o anúncio dos vencedores.

Mas o objetivo aqui não é apenas fazer um histórico-homenagem ao Oscar CIMOL, mas falar também da importância que o mesmo em si carrega.
Filmar é brincar de deus, você pega uma terra árida, onde não há nada, e nela faz surgir cenários, personagens, ações e os costura, bem ou mal, tecendo-os num único mundo, em algo que mesmo sendo uma ficção preservará dentro de si diferentes porções da História. E é de memória o que precisamos, sempre, não apenas no atual momento.
E eis que assim, pela magia do Oscar CIMOL, Taquara e outras cidades da região se fizeram como o Sitio do Pica Pau Amarelo, ou seja, terreno onde personagens de obras diversas, aqui no caso de Shakespeare, Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Bram Stoker e mais recentemente, os da dama da trma policial, Agatha Christie, se cruzarem. (nas fotos, três excelentes intérpretes do inspetor Hércule Poirot; eu entre o aluno Reyel e o Morrison, em edição anterior, e abaixo, no meio, o Poirot mais recente, Otávio Vitorassi, vencedor de Melhor Ator da 6ª edição, entre os dois outros escolhidos como melhores atores.)


Adaptar textos de grandes autores é dificílimo. Se até os grandes profissionais, por várias vezes se dão mal nisso, imaginem o estresse da gurizada que vai embarcar, pela primeira vez, em tal empreitada.
Mas adivinhem, e aqui está um dos motivos de eu gostar de ser do júri: somos surpreendidos, sempre. Seja na atuação, na direção, edição, seja no uso de efeitos, na trilha, maquiagem, enfim, a magia acontece. E sempre digo lá no palco “quem gostou da brincadeira, a continue, seja de forma amadora, seja no profissional, pois tem muito sangue bom pra coisa no que assistimos”.


As grandes sacadas estão na criatividade, tipo não temos isso usemos aquilo, não temos meninos no grupo, vamos mudar o sexo do personagem, funcionou. Filmar numa única casa com portas de correr para parecer dentro de um trem, ou num lugar com janelas semi-ovais para lembrar que se está numa cabine de navio, funcionou. Usar o sotaque da língua original do personagem, funcionou. Isso e mais aspectos como aberturas hiper-criativas, cuidado com o figurino, takes longos bem executados e com boas falas, caprichadas atuações mostram ao júri o empenho de fazer os filmes da maneira mais séria e profissional possível frente aos escassos e amadores recursos que os alunos possuem.
Num país em que cada vez mais se ampliam as almas brutas, ou como disse o poeta T. S. Eliot, cheias de palha, o trabalho com as manifestações artísticas não pode parar, pois elas são a prova definitiva de que a nós, seres humanos, o Senhor acrescentou algo mais, um outro aspecto de seu ser divino.
Não sei de você, mas para muitos, inclusive para mim, quantas vezes a Arte proporciona experiências mais intensas, mais verdadeiras, mais transformadoras, mais impactantes do que momentos religiosos ou de espiritualidade.
Parabéns professora Rory, parabéns CIMOL.

E dedico este texto a todos os meus colegas, professores, em apoio à guerrilha que travam incansáveis com sua sabedoria, seus lápis e canetas para tentar amenizar os duros corações sem Arte de muitos dos nossos governantes.


