Rafael Tourinho Raymundo
Esta postagem foi publicada em 29 de junho de 2018 e está arquivada em Rafael Tourinho Raymundo.

Esconder-se ou ir à luta, por Rafael Tourinho Raymundo

Esconder-se ou ir à luta

A sociedade tende a condenar padrões desviantes de conduta. Quem não se adapta aos costumes aceitos pela maioria sofre represálias. Nesse caso, restam duas alternativas: esconder-se ou ir à luta.

Por muito tempo, grupos marginalizados escolheram a primeira opção. Encontravam-se em guetos. O bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, era um desses lugares. Foi refúgio para gays, lésbicas, travestis e outras pessoas “fora do padrão”. Porém, também sofria constantes batidas policiais. É que, em 1969, beijar alguém do mesmo gênero era considerado “conduta imoral”, muitas vezes punida com o cárcere.

Numa noite daquele ano, a ação da polícia foi particularmente truculenta. Houve, então, quem tentasse impedir as detenções. O embate acabou em confronto físico e motivou protestos. No ano seguinte, a comunidade marchou em favor da liberdade. Foi a primeira parada gay da história.

Hoje, quem acompanha eventos do tipo pelo noticiário pode não entender por que tanto carnaval. Há quem diga que a militância quer forçar todo mundo a agir como os homossexuais. Não, não se trata disso. A luta é por respeito e por aceitação.

Houve uma época em que casais de lésbicas, nas novelas, morriam em acidente de trânsito ou explosão de shopping, logo nos primeiros capítulos. Nos anos 1980, acreditava-se que apenas gays adoeciam de AIDS. Travestis eram sinônimo de criminalidade e comportamentos despudorados. Os indivíduos de conduta desviante eram invisibilizados e tratados como pária.

Foi preciso empunhar muita bandeirinha do arco-íris para alterar essa perspectiva. Em 2018, uma parcela maior da população entende que orientação sexual e identidade de gênero não definem caráter. Se Maurício beija rapazes, isso não o impede de ser um amigo leal. Solange pode destacar-se no trabalho e, ao fim do dia, retornar a casa para os braços da esposa.

Julgar alguém pela sexualidade é tão inútil quanto julgar alguém pela cor dos cabelos. Acontece que ainda vivemos tempos de intolerância. Muita gente carrega o preconceito herdado de um passado recente. O resultado é que seres humanos continuam a sofrer agressões e a morrer por não se enquadrar num perfil específico.

É por isso que a luta segue. O que se busca é compreensão. Até porque, quando uma pessoa entende a diversidade, ela passa a aceitá-la. Mais que isso, passa a não se importar com o que é diferente. Aí, o fato de um cara beijar rapazes soa tão insignificante quanto o fato de ele ter cabelos castanhos. Ele não está matando nem roubando: está apenas vivendo sua própria vida. Em nenhum período da História isso deveria ser crime.

A data da primeira marcha de Nova Iorque – 28 de junho – ficou conhecida como Dia do Orgulho LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e outros grupos minorizados). Orgulho é o sentimento de quem não precisa se esconder dos outros. Orgulhosa é a sociedade que aceita seus cidadãos como são.

Entre esconder-me ou ir à luta, fico com a segunda opção. Marchemos.

Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]