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Esta postagem foi publicada em 19 de março de 2021 e está arquivada em Miscelânea.

Estratégias para a privatização, por Ana Maria Baldo

ESTRATÉGIAS PARA A PRIVATIZAÇÃO

Muito tem se falado nos últimos tempos sobre a privatização de empresas estatais no Brasil. Os governos neoliberais (aqueles que defendem estado mínimo e o lucro da iniciativa privada ao invés de benefícios reais à população; aqueles governos que estão ao lado do empresariado e não ao lado do trabalhador e da trabalhadora) têm como premissa privatizar o maior número possível de empresas estatais, lançando-as às mãos da iniciativa privada.

E para isso há uma velha tática.Velha, simples, com resultados positivos para o capital e que costuma enganar muito bem a sociedade: o sucateamento dessas empresas. De forma simples e sucinta esta estratégia funciona do seguinte modo: reduzem-se os investimentos na empresa eem seus recursos humanos, precarizam-se as estruturas, reduzem-se os orçamentos, etc., fazendo cair assim a qualidade do serviço prestado.

Feito isto, chega a vez da segunda parte dessa tática (que também costuma funcionar muito bem), que é difamar os servidores públicos. Falar mal de seu trabalho ou os acusar de serem “parasitas” do dinheiro público. Ao setor privado não interessa um serviço público, gratuito e de qualidade; o interesse do empresariado, pelo contrário, é criar, junto com os governos neoliberais, uma campanha de discursos negativos referentes aos servidores públicos. A iniciativa privada tem o interesse na terceirização desses serviços e os governos neoliberais em desqualificar os servidores concursados, abrindo assim caminho para os famosos “cargos de confiança” escolhidos ao gosto de quem governa (preferencialmente devem pensar como o governante, acatar todas as ordens sem questionar e fechar os olhos diante de irregularidades).

Por fim, vem o lance final dessa jogada toda: a empresa pública, “sucateada” e com “profissionais ruins”, está em déficit (dá mais despesas que lucro para o Estado).

BINGO! E assim se convence a população de que privatizar a empresa fará com que os serviços melhorem!

“Ah, mas porque o governo faria isso?” Porque é ele quem realiza a intermediaçãodas transações financeiras relacionadas ao processo de privatização, e porque é assim que os membros de tal governo constroem fortunas mesmo sem ter renda para isso.

Importante observarmos que as empresas que estão sob a mira do capital privado são as que prestam serviços essenciais, estratégicos e lucrativos. Vender as empresas “sucateadas e cheias de despesas” por um valor irrisório se comparado ao real valor de mercado, repassando assim os lucros que seriam da população para as mãos de alguns empresários, não pode ser bom para a sociedade.

“Mas ao menos os serviços terão mais qualidade!” Ledo engano, meus caros. Os serviços se tornam mais caros, excluindo uma parte significativa da população de ter acesso a eles, gerampouca concorrência, criamcombinação de preços e aumentam os valores dos serviços prestados (um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI, que é uma entidade patronal), mostrou que de 1999 – ano em que foram realizadas grandes privatizações no Brasil – até 2019 os serviços passados para a iniciativa privada tiveram, em média, aumentos superiores à inflação oficial do período) demonstrando que quem lucra com tudo isso é o empresariado e quem perde é a população.

Para as empresas privadas, preços justos, direitos trabalhistas, meio ambiente, qualidade não importam. Para elas apenas importa o lucro. “Ah, mas vai ter fiscalização e controle, não vai?” Com que servidores? Os que se aposentaram, os que aguardam concursos ou os que, por serem poucos, estão sobrecarregados em suas funções?

Então, se você não é um empresário interessado em comprar uma empresa estatal, nem um membro de um governo neoliberal, não seja bobo e não caia na falácia da privatização. Defenda o SUS, defenda a CORSAN, defenda os CORREIOS, defenda o Estado como provedor do bem-estar social e não como uma máquina de enriquecer empresário.

Por Ana Maria Baldo
Professora, de Taquara
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