
A guerra na Ucrânia, que já ultrapassa três anos, segue sem solução, em meio a tentativas diplomáticas que falharam miseravelmente. A mais recente ocorreu no dia 15 de agosto, quando Donald Trump esteve diante do presidente russo Vladimir Putin no Alasca. Três dias depois, em 18 de agosto, o chefe da Casa Branca recebeu Volodymyr Zelensky e líderes europeus em Washington, mas não houve avanço em direção a um cessar-fogo, que Moscou condiciona a termos favoráveis ao Kremlin.
Enquanto líderes discutem em mesas de negociação, o terror psicológico nas trincheiras continua. Kiev intensificou o recrutamento de estrangeiros, prometendo salários de até R$ 25 mil e seguro de vida de US$ 350 mil (aproximadamente R$ 1,8 milhão). Para ampliar o alcance no Brasil, traduziu sua página de alistamento para o português e mobilizou recrutadores em redes sociais e aplicativos de mensagens, destacando que não é exigida experiência formal, embora seja valorizada.
Pelo menos dois moradores do Vale do Paranhana deixaram a região rumo ao leste europeu. Um leva na bagagem a experiência de missões de paz da ONU (Organização das Nações Unidas) no Haiti no começo dos anos 2000. O outro, somente o histórico como segurança patrimonial. Suas trajetórias diferentes agora se cruzam no mesmo destino: a guerra que já causou cerca de 950 mil baixas russas (até 250 mil mortes) e 400 mil baixas ucranianas (entre 60 e 100 mil mortes), segundo levantamento do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), um think tank baseado em Washington.
Um taquarense no front
Entre os brasileiros que embarcaram está Eric da Silva Oliveira, natural de Taquara, de 26 anos. Antes de partir, trabalhou como segurança privado armado e sonhava em ingressar no Exército brasileiro, mas não foi selecionado. Depois de anos planejando, decidiu abandonar tudo e se alistar na Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia.

“Deixar a família foi a parte mais complicada. Meus pais não queriam que eu viesse, mas tenho um propósito aqui”, conta Eric. “Não tive apoio de ninguém. Acabei abandonando meus trabalhos, me organizei, comprei a passagem e vim”.
Ele desembarcou na Polônia há cerca de um mês e seguiu de carro até a Ucrânia, já que o espaço aéreo do país permanece fechado. Hoje passa por treinamento militar.
“Existe um processo seletivo: a gente se alista pelo site das Forças Armadas, passa por uma entrevista e recebe uma carta-convite do Exército Ucraniano. Ao chegar, assinamos um contrato direto e iniciamos dois meses de treinamento. Não somos mercenários, somos legionários, com os mesmos direitos dos soldados ucranianos”, relata Eric.
Antes de partir, ele trabalhava como segurança privado armado. Para chegar até a linha de frente, tirou do bolso cerca de R$ 7,5 mil, entre passagem e estadia inicial. “Não vim pelo dinheiro. Vim porque sempre gostei do mundo militar e por um propósito maior: ajudar um país que está sendo atacado todos os dias injustamente”, afirma.

O salário e os riscos
O salário base é de 40 mil grívnias (cerca de R$ 5,2 mil) durante o treinamento. Em combate, com bônus, pode chegar a 120 mil grívnias (cerca de R$ 15,8 mil). Mas Eric alerta: muitos não chegam sequer a receber o primeiro pagamento. “A chance de morrer é enorme. Alguns vêm iludidos pelo salário e não sobrevivem à primeira missão”.
O contrato tem duração inicial de três anos, renovável, com possibilidade de saída após seis meses. Quem abandona antes é considerado desertor e pode ser banido do país.
No treinamento, Eric relata atividades físicas intensas, uso de armamentos e curso médico de atendimento pré-hospitalar em combate. Questionado sobre o medo da guerra, é categórico.
“Não temo o front. Estou aqui por acreditar nesse propósito”.

Ele fará parte de um grupo de assalto, equipes designadas para eliminar soldados russos em locais invadidos.
“A guerra hoje é mais moderna, com drones e mísseis, mas ainda há bastante combate real. Uma equipe de assalto faz planejamento detalhado e busca neutralizar todos os soldados inimigos no local. Também existem muitos campos minados, e muitos soldados perdem membros ou morrem por causa deles”, detalha.
Sem trégua
Apesar dos discursos oficiais que minimizam riscos, a realidade descrita pelos voluntários é outra.
“Essa noite mesmo [21 de agosto] houve um dos maiores ataques desde que cheguei. Não existe lugar seguro aqui enquanto essa guerra continuar. Todos os dias morrem muitas pessoas inocentes”, conta.
Apesar da tensão, Eric e outros voluntários conseguem momentos de lazer. Os treinamentos vão das 6h às 18h, com intervalos para refeições, e as folgas são aos sábados à tarde e domingos. Ele e colegas brasileiros jogam futebol, vôlei, pescam ou visitam o mercado local.
“No domingo a gente sempre acha algo para fazer”, diz Eric, que está acompanhado de outros brasileiros, incluindo três de São Paulo, e há veteranos que lutam há mais de dois anos.
Tailon Ruppenthal: do Haiti para Dnipro
Outro brasileiro na guerra é Tailon Ruppenthal, três-coroense e autor do livro ‘Um Soldado Brasileiro no Haiti‘. Ex-soldado, ele integrou a missão de paz no país caribenho em 2004, após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide, ajudando na estabilização e reconstrução.

De volta ao Brasil, trabalhou com audiovisual em Três Coroas, até decidir embarcar para a Ucrânia. Hoje, ele está em Dnipro, importante centro econômico e local estratégico no mapa do conflito, onde opera drones em uma frente marcada pela disputa em torno do rio de mesmo nome que corta a cidade.
“Escolhi ser soldado na guerra da Ucrânia por um motivo fundamental: a crença na liberdade e na justiça. Não sou ucraniano de nascimento, mas a invasão russa me tocou profundamente. Vi um país soberano ser atacado sem provocação e testemunhei a violência infligida a pessoas inocentes”, conta Tailon. “É uma batalha pela paz e pela segurança da Europa e do mundo”.
Ele enfatiza que sua decisão não foi motivada por aventura ou glória, mas por convicção:

“A Ucrânia luta não apenas pela própria existência, mas pelos valores que compartilhamos: o direito de uma nação escolher seu destino e resistir à tirania. Lutar ao lado dos soldados ucranianos é uma honra. É uma oportunidade de contribuir para algo significativo, estar do lado certo da história e ajudar a garantir que a liberdade prevaleça sobre a opressão”.


