
Do “Meu cinicário” – Pobre comunista dá pra entender; tem toda lógica. Mas, da classe-média pra cima, só pode ser malandragem. Rico, então, nem se fala!
FAKE NEWS
A Terra fora invadida por extraterrestres! A notícia foi dada aos radiouvintes da Columbia Broadcasting System, a hoje famosa CBS, o grande conglomerado norte-americano de comunicação, na noite de 30 de outubro de 1938, em boletins noticiosos urgentes, interrompendo a programação normal da emissora. Para a gente se situar, é mais ou menos como se um desses modernos canais de televisão, colocasse no ar aquele filminho de câmeras voadoras, a cada dez minutos, e um locutor, de voz embargada e assustadora, informasse uma invasão alienígena. Na verdade, tratava-se, apenas, da adaptação radiofônica da “Guerra dos Mundos”, novela de ficção científica de Herbert George Wells, o famoso escritor inglês H. G. Wells. Escusado dizer, a adaptação foi tão convincente que provocou comoção e pânico nos Estados Unidos. Seu autor, diretor e também um dos intérpretes, chamava-se Orson Welles, mais tarde grande cineasta, ganhador do Oscar, em 1941, de melhor roteiro pelo filme Cidadão Kane (também dirigido e interpretado por ele) e considerado por muitos críticos, o melhor filme de todos os tempos. Ou seja, o sujeito entendia do riscado ao fazer uma criação literária ser tomada como um acontecimento verdadeiro. Apesar de todos os elogios, o trabalho não passou daquilo que, hoje, é a tão odiada – merecidamente – fake news: notícia enganosa!
Já pudemos notar que esse acontecimento não é tão moderno como se poderia pensar à primeira vista, atribuindo-o às famosas redes sociais. Elas, as redes, só tornaram mais rápida a disseminação dessas histórias. O que, na época do acontecimento de 1938, usou o rádio, agora utiliza o computador pessoal e o telefone celular. Mas nem o rádio poderia ser responsabilizado por espalhar das mentiras. Os livros já vinham cumprindo sua parte na divulgação de ideias excitantes, mas falaciosas. Ou não lhes parece inacreditável a existência de uma ilha chamada Utopia, livro de 1516 (nome transformado em substantivo, designando ideias improváveis)? E, mais interessante, seu autor, também inglês, Thomas More, foi canonizado pela Igreja Católica. Outra vez, uma fake news literária!
Há campanhas – sempre há – na televisão, tentando orientar as pessoas a não compartilhar essas informações. Parece-me pertinente, mas existe um “porém” na coisa. Entre as técnicas sugeridas para identificar a veracidade das histórias está a pesquisa sobre o veículo de comunicação originário e sua credibilidade. Então lembro da CBS da “Guerra dos Mundos”. Quem duvidaria dela?
Por Plínio Dias Zíngano
Professor, de Taquara
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