Tempo Contado
Esta postagem foi publicada em 3 de agosto de 2018 e está arquivada em Tempo Contado.

Feito uma canção de John, por Doralino Di Souza

Feito uma canção de John

Não houve tempo de juntar os pedaços de John. Enquanto se despedaçava no chão frio de um beco nova-iorquino, John, decerto pensou no quanto ainda tinha para dizer, nas tantas palavras para sempre guardadas. E o quanto dele, jamais seria encontrado. André lembrou-se disso, quando viu Doralice atravessando a rua, os passos firmes na faixa de segurança, o olhar nele. Quais as palavras serão ditas e quais deverão se atravancar?

Ela o olhou com serenidade, saudade, até. Ele também. Afinal, tem coisas que não dá pra negar. Era segunda-feira de manhã, o outono assoprava fraco e o sol iluminava o guri de poucos meses no colo de Doralice. André não teve como não observar o guri. A mão ossuda do homem fez agrado no menino agarrado à mãe. O menino pareceu gostar daquele ensaio de carinho, daquele gesto. Ali estavam os três. Pertos. Quase juntos. Quase.

André olhava o menininho, de fato, existia. Sim! Nascido, tal qual uma canção de John, dum instante de extrema inspiração, de embriagues de vida, feito um vermute misturado ao vinho da missa dominical. O menino, continuidade de uma história de protagonistas efêmeros. A inquietação se sobrepôs à candura do instante: vida que chama por pessoas firmes em seus papeis. Nada de lágrimas caídas pelo rosto. Apenas um tchau com desejos de cuide-se.

André se afasta num caminhar largo, vai atravessar a praça, vai sumir. Antes, olhou para trás. Só por um instante, olhou. Se não virou estátua de sal, a imagem da mãe e filho petrificou-se na retina. André, que sempre se dera bem com as palavras, não as encontrara naquele dia. Doralice não o chamou de volta, era dela, isso de não chamar: quer ficar, fique. Doralice beija a mãozinha do filho, ele lhe devolve um sorriso. Doralice é feita de escolhas, essa, a mais difícil, essa, a mais honrada. Outro beijo no filho, novo sorriso cúmplice.

André se atém a uma tristeza pesada. Dentro do carro, não buscou a complexidade das letras do John. Tem coisas que só cabem no verbo direto. Sem rodeios. Mas ele sabe o quanto é difícil, por isso é que existem inúmeras formas de dizer o obvio. Uma velha canção ecoa nele todo: “Eu queria ser John Lennon um minuto só, pra ficar no toca-discos e você me ouvir. Eu queria ser aquele espelho do seu quarto, pois nele você sempre olha antes de dormir”.

Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: [email protected]