
Feito uma canção de John
Não houve tempo de juntar os pedaços de John. Enquanto se despedaçava no chão frio de um beco nova-iorquino, John, decerto pensou no quanto ainda tinha para dizer, nas tantas palavras para sempre guardadas. E o quanto dele, jamais seria encontrado. André lembrou-se disso, quando viu Doralice atravessando a rua, os passos firmes na faixa de segurança, o olhar nele. Quais as palavras serão ditas e quais deverão se atravancar?
Ela o olhou com serenidade, saudade, até. Ele também. Afinal, tem coisas que não dá pra negar. Era segunda-feira de manhã, o outono assoprava fraco e o sol iluminava o guri de poucos meses no colo de Doralice. André não teve como não observar o guri. A mão ossuda do homem fez agrado no menino agarrado à mãe. O menino pareceu gostar daquele ensaio de carinho, daquele gesto. Ali estavam os três. Pertos. Quase juntos. Quase.
André olhava o menininho, de fato, existia. Sim! Nascido, tal qual uma canção de John, dum instante de extrema inspiração, de embriagues de vida, feito um vermute misturado ao vinho da missa dominical. O menino, continuidade de uma história de protagonistas efêmeros. A inquietação se sobrepôs à candura do instante: vida que chama por pessoas firmes em seus papeis. Nada de lágrimas caídas pelo rosto. Apenas um tchau com desejos de cuide-se.
André se afasta num caminhar largo, vai atravessar a praça, vai sumir. Antes, olhou para trás. Só por um instante, olhou. Se não virou estátua de sal, a imagem da mãe e filho petrificou-se na retina. André, que sempre se dera bem com as palavras, não as encontrara naquele dia. Doralice não o chamou de volta, era dela, isso de não chamar: quer ficar, fique. Doralice beija a mãozinha do filho, ele lhe devolve um sorriso. Doralice é feita de escolhas, essa, a mais difícil, essa, a mais honrada. Outro beijo no filho, novo sorriso cúmplice.
André se atém a uma tristeza pesada. Dentro do carro, não buscou a complexidade das letras do John. Tem coisas que só cabem no verbo direto. Sem rodeios. Mas ele sabe o quanto é difícil, por isso é que existem inúmeras formas de dizer o obvio. Uma velha canção ecoa nele todo: “Eu queria ser John Lennon um minuto só, pra ficar no toca-discos e você me ouvir. Eu queria ser aquele espelho do seu quarto, pois nele você sempre olha antes de dormir”.
Doralino Di Souza
Jornalista e escritor, de Igrejinha.
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