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Lembranças de um ex-cabo taquarense que serviu na Faixa de Gaza

As pernas ficaram bambas com as ondulações do mar. Depois de 32 dias atravessando o Oceano Atlântico em um navio

As pernas ficaram bambas com as ondulações do mar. Depois de 32 dias atravessando o Oceano Atlântico em um navio cargueiro saído do Rio de Janeiro, o contingente brasileiro com 368 homens ancorou em Porto Said, na costa do Mar Mediterrâneo, à entrada do Canal de Suez. Era 1963. A paisagem árida do Egito estava distante de tudo o que haviam presenciado até então. Entre oficiais, sargentos, subtenentes, cabos e soldados brasileiros que comporiam as Forças da Paz das Organizações das Nações Unidas (ONU) encontrava-se o taquarense Gervasio Ferreira Maciel Netto – na época com 25 anos.

 

As lembranças fulguram aos poucos na cabeça do ex-cabo número 8058 do Exército Brasileiro. O senhor de 76 anos lembra com carinho dos tempos em que esteve a serviço no Egito. A partida de Porto Alegre foi em julho de 1963 e o retorno em 19 de outubro de 1964. Nada menos que Ieda Maria Vargas acompanhou-os no embarque. A bela porto-alegrense havia conquistado o título de Miss Brasil e, em breve, lucraria, também, o Miss Universo. “Ah, era um pedaço de mulher, daquelas que tu não acha defeito”, lembra, sorrindo. Da capital gaúcha, seguiram carregados de arroz ao Rio de Janeiro. De lá, a embarcação partiu para Recife, Santa Cruz de Tenerife, Barcelona, e, por último, no Egito, em Porto Said – que significa porto alegre, em tradução do árabe para o português.

 

A arquitetura local era muito peculiar para Gervasio. As luzes das casas cintilavam à noite quando o navio aportou. Após desembarque, tomaram trem e viajaram 250 quilômetros até Rafah Campi – um campo de refugiados palestinos na Faixa de Gaza. Lá, serviu a 8ª Companhia, ajudando a manter a linha de demarcação armistícia entre Israel e Egito. As barracas, cada qual com dez praças, eram simples e apenas os abrigavam do relento. “Dava muito tiroteio naquela fronteira”, garante, ao lembrar que “às vezes, acordava com as balas zunindo na porta”. Em Rafah City viviam alguns presos egípcios, que eram mandados à fronteira pelo presidente da época, Gamal Abdel Nasser, para trabalharem como policiais fedains – “aqueles que se sacrificam”.

 

A carreira militar iniciou dos 18 para os 19 anos. Entrou como soldado e passou pelo curso de mecânico de armamentos leve, em General Câmara, onde obteve 8,80 de média final. A promoção a cabo aconteceu em seguida. “Foi um lugar onde só fiz amigos. Módestia a parte, cumpri com meu dever e nunca levei uma punição, nem advertência”. Para conseguir ingressar nas Forças da Paz, Gervasio passou por uma seleção rigorosa entre 194 cabos da mecânica gaúcha. O teste era desmontar algumas armas e saber o nome de cada peça e o funcionamento delas. O mérito de ter ficado entre os primeiros na prova é visto com simplicidade pelo senhor. “Decerto, os outros não preencheram os requisitos.

 

”Representar a nação brasileira na ONU foi um momento importante para Gervasio, que estudou o equivalente ao ensino fundamental. Além de fazer turismo, a experiência rendeu-lhe amadurecimento. “Tudo o que vi e o que passei me servem de orientação até hoje”. Ainda fica emocionado quando escuta notícias da Faixa de Gaza. Nestes momentos, lembra-se de muitos lugares que visitou, como Alexandria, Cairo, Rafah Campi, Alarixe.

 

Antes de embarcar, Gervasio jamais havia ouvido falar sobre o Egito. Lá, aproveitou para conhecer a Esfinge de Gizé, a Pirâmide de Saqqara, em Mênfis, o túmulo de Quéops, viu a máscara de Tutankamon. A curiosidade fez com que ele viajasse de avião – algo que tinha receio – de Alarixe, no Egito, a Amã, na Jordânia. Em Jerusalém, conheceu o Mar Morto, o Rio Jordão, a Basílica de Natividade, em Belém, na Palestina. Esteve na Via Sacra, no Santo Sepulcro, na Igreja do Pater Noster, na Mesquita de Omar, no Muro das Lamentações. Muito claro nas elucidações, Gervasio não se furta de nenhum detalhe. “O corpo está meio esgualepado, mas a cabeça está boa”, garante. Além da vivência, trouxe na mala diversas lembranças, desde tapetes, toalhas e roupas de cama até uma bicicleta philips inglesa, que mantém guardada em um galpão.

 

As cartas escritas à mão durante a passagem pelo Egito estão guardadas até hoje. Esta era a única forma de receber e enviar informações aos familiares e amigos. A emoção nunca escapa ao pegar os papeis amarelados pelo tempo e reler as notícias remetidas pela mãe. Na companhia das boas lembranças, Gervasio chega à conclusão: “Olha, pagou a pena tudo que vivi.”

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