God save the Queen
A realeza britânica sempre é notícia, mesmo que não seja. Fico impressionada com o espaço dedicado à monarquia na imprensa mundial, com informações totalmente inúteis, enquanto o mundo desaba na cabeça dos seres humanos.
Aqui no Brasil não é diferente. Muito pelo contrário. Seguimos o rebanho e, se é nobre ou rico, deve ter algum valor, bem maior do que a nossa reles existência. De pobre, basta o que já temos aqui com nosso eterno complexo de vira-latas.
Linda mesmo é a monarquia e seus herdeiros. Uma beleza de vida coroada agora com o nascimento de mais um candidato ao trono, o quinto na linha de sucessão, que talvez nunca assuma.
Atenta ao aumento da prole da realeza, anunciada entre notícias sobre bombardeios e delações, catástrofes e atentados, assassinatos e milícias, a população brasileira sorri e compartilha fotos do bebê real, esquecendo da miséria do seu povo.
Só para lembrar: o Brasil lidera o número de assassinatos e é o terceiro país com mais presos no mundo, além de outras mazelas, como o índice assustador revelado pela Fundação Abrinq de que há 4 milhões de crianças vivendo em favelas no país e de que, na região nordeste, 60% das crianças vivem em estado de absoluta pobreza. Isso sem falar no alto percentual de grávidas com idade inferior a 19 anos.
Impossível acreditar em mudanças com números tão assustadores que escancaram o descaso com nossas crianças, justamente elas que nos sucederão neste trono tupiniquim, sem lenço, nem documento e muito menos título de nobreza.
Quem não recebe o básico, a começar pela educação, alimentação, saúde e segurança, e não nasce em berço esplêndido, está fadado à derrota ou à morte, com raras exceções, reproduzindo pobreza, multiplicada por mais e mais gente que nasce todos os dias, num ciclo que me parece interminável e que resulta nos índices aterradores sobre a infância no Brasil.
Com boa vontade e honestidade política, há saídas honrosas e dignas para este problema. Sem isso, não há infância, não há futuro. E enquanto a família real for o assunto principal da semana na sala de TV, não há esperança para quem, de qualquer classe social, idolatra apenas os ricos e famosos, neste país que lota as ruas de carros e de gente, mas que abandona suas crianças e segue sem rumo, ignorando quem será o sucessor deste reinado.
Roseli Santos
Jornalista, de Taquara
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