Porque se julga e se mata pela aparência. Nada há para contestar diante dessa realidade em tempos tão sombrios, aterrorizados que estamos até com a própria sombra.
Quem é aquele que nos observa na esquina? Estará à espreita de uma vítima desatenta ou simplesmente aguardando a carona de um amigo para descansar do dia intenso, tenso, de trabalho sem garantias?
Diga-me o que vestes e direi quem és, julgando precipitadamente, ou não, aquele que vem em nossa direção, seja no sinal de trânsito, no estacionamento de um shopping, em frente à escola, à meia-noite ou em plena luz do dia.
Aparências camuflam e assustam; encantam e espantam. Abrem e fecham portas para a vida e para a morte; para o bem e para o mal; para a mentira e para a verdade.
Quem é você nesta sociedade paranoica que não se reconhece mais, nem entre os seus pares, tão díspares, deformados pelo medo? Quem ousa matar o cidadão que, por engano, é alvejado à queima roupa, confundido com assaltante por estar vestindo “equivocadamente” moletom com capuz?
Com que argumentos se defende um ex-marido, namorado ou amante que dispara furiosamente a arma ou enterra a faca em dezenas de golpes, estraçalhando, por ciúmes, os sonhos de uma mulher?
Que desculpa recebe o professor que tem sua dignidade parcelada em longas prestações para educar com motivação e orgulho os futuros cidadãos deste país?
Difícil desviar os olhos e o preconceito diante da insegurança que desarma e rouba a liberdade de quem antes podia ir com a certeza de voltar. É proibido parar, acreditar, confiar. Respire fundo e siga na direção oposta do outro que talvez te persiga para roubar o celular ou apenas te peça fogo para acender o cigarro e suspirar sorrateira e solitariamente em passos suspeitos pela rua deserta.
Assassinaram o sossego, a paz e a ingenuidade. Tá lá o corpo estendido no chão porque há perigo na esquina, sim. O sinal, agora, está fechado e “eles” estão vencendo, meu bem!


