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Esta postagem foi publicada em 29 de maio de 2009 e está arquivada em Colunas, Haiml & etc..

Poe – 200 anos de uma longa importalidade (1º)

haimlSão 200 anos de Edgar Allan Poe (1809 -1849) e, aproveitando a data, e o tema do Concurso Literário da Faccat, reparto com o leitor algumas ideias extraídas de “A poética do conto”, trabalho do escritor/teórico-literário gaúcho Charles Kiefer (Valsa para Bruno Stein, etc…) .
“A poética do conto” é resultado de uma brilhante tese de doutorado na PUCRS, na qual Kiefer faz um estudo sobre o conto, e faz isso usando um dos mestres do gênero, Poe. Primeiro ele discute as avaliações críticas de Poe a um escritor contemporâneo seu, Nathaniel Hawthorne (18..-18..) Após, Kieffer pega dois escritores mais modernos, Júlio Cortázar e Jorge Luis Borges, ambos sul-americanos, argentinos, considerados mestres do realismo fantástico, e revela o que Cortazar e Borges dizem sobre Poe e o que têm em comum com o poeta de “O Corvo”. Após, analisa diferenças e semelhanças entre os quatro escritores. No final, Kiefer oferece um ensaio crítico de Poe sobre a obra de Hawthorne e um feito em 1845 sobre a obra de Poe.
Por toda “A poética do conto”, somos informados por Borges, Cortázar, Hawthorne e outros escritores e teóricos pesquisados e referenciados por Kiefer, da importância de Poe, mesmo através de seus possíveis defeitos, da profunda influência de Poe no desenvolvimento de grande parte da literatura de sua época até hoje.
Kiefer já inicia mencionando que Poe, desde o século 19, tem influenciado artistas franceses, italianos, espanhóis, portugueses, alemães e franceses; no século 20, mexicanos, peruanos, venezuelanos, argentinos, brasileiros, argentinos e uruguaios. Da França, para onde foi apaixonadamente levado pelo maior de todos os seus poetas, Charles Baudelaire, traduzido por este, foi parar na Rússia, onde ninguém menos do que Fiodor Dostoiesvky (Crime e Castigo e etc..) se apaixonou pelo texto poeano. Acrescento aqui que a influência de Poe também invade o mundo oriental-japonês, tendo o escritor Taro Irai (1894-1965), um dos maiores contistas japoneses, alterado a forma de seu nome, assinando seus contos/romances como Edogawa Ranpo, para o mesmo soar como o do seu mestre inspirador.
Segundo Cortázar, citado por Kiefer, “o mundo de Poe é tão variado, tão intenso, tão assombrosamente adequado à estrutura do conto como gênero literário que quem renega Poe, renega a verdadeira literatura”. Cortázar também destaca a perfeita coerência entre a duração e a intensidade do conto poeano, a harmonia entre imaginação e técnica, e o fascinante modo como nos induz ao inconsciente e nos dá o texto sob a forma de sonhos, alucinações, ideias obsessivas, e mais a propriedade magnética  que nos põe no  conto como quem entra numa casa, sentindo imediatamente todas as múltiplas influências de suas formas e cores.
De Borges resume-se o seguinte: a literatura moderna seria inconcebível sem o poeta Walt Whitman e sem Poe, assim como a literatura policial feita por nomes como Robert Stevenson, Arthur Conan Doyle, H. K. Chesterton deve muito ao “Os crimes da rua Morgue” poeano;  que as  traduções  prejudicam em vários aspectos o chegar ao verdadeiro texto de Poe;  a maneira como cria atmosfera e ambientes é magistral, jamais alcançada por nenhum outro contista.
Ao fim, Kiefer ainda acrescenta as seguintes conclusões: Poe é importante por que atacou com coragem uma literatura conservadora, foi um exemplo de rigor artístico, criou novas formas de ambientação e de gênero, tipificou um novo modelo de artista, o autor crítico e gerou uma contínua formação de discípulos.

Luiz F. Haiml

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