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Esta postagem foi publicada em 6 de agosto de 2010 e está arquivada em Colunas, Haiml & etc..

Aos pais – aos que são e aos que vão ser

Franz Kafka deixou um livro chamado “Carta ao Pai”. Nele conta a “construção” de sua relação com Hermann, seu pai. O livro surge de uma situação inusitada que levaria Kafka pelo resto de sua curta vida a questionar tudo. Com cinco anos, ele acordou de noite com sede, chamou por alguém, veio o pai. Surpresa! O pai incomodado o levou para o lado de fora de casa, o deixou um tempo lá, daí o buscou e o pôs de volta na cama, e tudo isso sem dizer uma palavra. Espanto! Incompreensão!
Franz cresceu não tendo raiva do pai, pelo contrário, admirou-o por suas boas qualidades de comerciante, de homem por vezes bonachão, mas permaneceu distante dele, calado por aquela estranha situação da infância que lhe mostrara um lado paterno que, jamais compreendido, resultou em “Carta ao Pai”, a qual enviou ao genitor, esperando, assim, resolverem suas diferenças. O pai a devolveu sem ler. Após a morte do filho, Hermann, sempre mais forte e saudável que Franz, talvez percebendo o que perdera, logo alquebra-se e envelhece.
Mais tarde, um psiquiatra brasileiro escreveria “Canto dos Malditos” – virou o filme “Bicho de Sete Cabeças” – que pais e filhos (adolescentes) deveriam ver juntos. Texto e filme nos levam aos sanatórios brasileiros dos anos 70, por causa de uma relação pai-filho que afunda. Percebe-se que um diálogo com palavras é bem mais difícil quando não houve, ou não há, o embasamento, um contato afetivo forte já estabelecido desde os momentos da geração. Sem isso, ambos ficam sendo empurrados para lados opostos, mesmo quando tentam se aproximar.
Se não há nem ao menos um afeto silencioso, não temos pai, não temos filho, só dois estranhos sob um mesmo teto. Muito triste para quem gerou da própria carne, do próprio sangue, da própria semente. Muito triste também para pai adotivo – que, por vezes, é mil vezes mais pai que certos pais que geram. Há muito sabemos que bebês são aguçadíssimas antenas parabólicas que captam tudo/todos já de dentro do ventre. Imaginem, então, depois. Por isso, vínculos afetivos já devem existir bem antes da fecundação.
Enfim, pai não é aquele que resolve “ser pai” só quando chega o dia de proibir a filha de sair com “tal roupa”, com “aquele sujeito”, ou quando o filho está na idade de ganhar uma bola de futebol, a camiseta de um time, um carro. Pai mesmo já está ligado à cria trocando suas fraldas, dando-lhe mamadeira, carregando, orgulhoso, a sacolinha rosa dos pertences da filha. Fazer isso não é perder a masculinidade, é começar a entender uma função importantíssima de ser homem.
Somos, os homens, os pais, também parte da terra onde se desenvolve, bem ou mal, o que irá ser dos nossos filhos.

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