Enquanto escrevia sobre Chico Xavier, inspirado pelo filme realizado por Daniel Filho, que eu acabara de ver em DVD, anunciavam para breve a estréia nas telas de “Nosso Lar”, agora já nos cinemas. “Nosso Lar” é obra ditada a Xavier pelo espírito André Luiz. Nela, André conta todo seu processo de melhora espiritual e o que é destinado aos seres, depois da morte, no local chamado de Nosso Lar. Ainda não vi a adaptação, mas, por acaso, achei o livro. Diz a imprensa – e me confirmam os conhecidos que foram ver o filme – que as sessões são lotadérrimas. Por que será?
O sucesso do fenômeno espírita, nas artes encenadas, e em termos de produção nossa, nacional, creio se iniciar com a adaptação para o teatro do livro “Violetas na Janela”. Em seguida, acho que vem o filme “Bezerra de Menezes”, que conta um pouco sobre o médico dos pobres, que nada lhes cobrava, e foi um dos principais divulgadores do espiritismo no Brasil. Dizem ter sido um sucesso de bilheteria, estranhamente não tendo nenhuma atração de produção popular. Falta-lhe, por exemplo, a dinâmica narrativa e o lirismo bem entrelaçados que há no filme de Daniel Filho. Mas e “Nosso Lar” ?
Num mundo cada vez mais caído no vulgar e subjugado ao material, solto sem verdadeiros valores, quem estará lotando as sessões de “Nosso Lar”? Quem estará fazendo com que o filme se torne um dos maiores fenômenos da bilheteria nacional? Não sou espírita, nunca tive uma prova do além, de que a vida não termina no plano carnal, mas acho que até o mais ateu dos humanos, até o mais descrente deles, aquele que diz, parecendo já sem esperanças “para mim tudo acaba aqui”, bem lá no fundo, tem uma curiosidade sobre se será possível superar a morte do corpo.
No Brasil, em 1944, um indivíduo só com o primário desenvolve “Nosso Lar”, panorama amplo, detalhado e fascinante sobre o que se passa além da morte carnal, com ideias que parecem ter saído de um Poe, de um Verne, de um Wells. Não é à toa que a imprensa brinca, dizendo que a obra tem um tom de ficção científica, o que não a desmerece em nada, pois não é o que dá sustento ao que não podemos imaginar? E não vem ela se tornando, cada vez mais rápido, realidade? Não nos possibilita ela repensar o mundo e sobre nós mesmos?
Ligam do Sesc: hora de devolver o livro, muitos o procuram. Enfim, descubro que a questão não está lá, no além, mas que tudo começa aqui. Cá na vida em que estamos é que é preciso evoluir, e evoluir é dedicar-se mais aos outros do que a nós mesmos. Difícil, né? Por isso, por mais complexo que seja o outro lado, Nosso Lar verdadeiro é a vida em que agora nos encontramos; o depois é consequência.
Esta postagem foi publicada em 15 de outubro de 2010 e está arquivada em Colunas, Haiml & etc..


