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Esta postagem foi publicada em 26 de abril de 2013 e está arquivada em Penso, logo insisto.

Heróis

HERÓIS

Do meu tuíter @Plinio_Zingano – Qualquer comida é “saudável”. Esqueça classificações do tipo “porcaria”. Se você parar de comer sua saúde vai pro brejo.

Não aguento esse pessoal da televisão — todos eles, de cabo a rabo — fazendo aventuras extremas e propagando os perigos dos seus atos. Entendo que devamos valorizar as nossas ações, mas criar situações perigosas só para poder receber a classificação de herói, valha-me, Deus, é um porre. Sem falar na edição veiculada pela televisão! Ali são acrescidos às reportagens outros itens, além daqueles visuais. Todos sabem que os efeitos sonoros são uma parte importante de qualquer interpretação dramática do cinema e, por consequência, da televisão. Por isto, há sempre uma música de fundo de qualquer ação (ou algo parecido com música).
Precisamos entender que ninguém é obrigado a procurar essas situações dramáticas e perigosas. Por isto, quem as está vivendo, de vontade própria, não deve, necessariamente, ser tomado como herói.
Herói é quem arrisca a sua vida em prol da vida de outro em situações fora de seu controle. Um médico, por exemplo, não é um herói, embora, muitas vezes, realize ações que salvem a vida de alguém sob sua guarida. É a tarefa para a qual ele está sendo pago. Isso vale para o bombeiro, o salva-vidas, o policial.
As corporações profissionais gostam muito de cantar loas às suas atuações, principalmente nos anúncios de datas comemorativas. É, mais ou menos, como se houvesse (e há, evidentemente) a tentativa de capitalizar a boa vontade do distinto público para aquilo feito pelos seus integrantes. Eu dizer que sou um herói porque sou professor e, nesta tarefa, me dedico a ensinar alguma coisa aos meus alunos, é apenas extrapolação das minhas funções. Basta um breve exame de consciência para chegar à resposta: as obrigações de um professor são ensinar (pelo menos, tentar) algo aos seus alunos. Pensar de outra maneira me deixa bastante contrariado. Não há curso para heróis e muito menos concurso. Eu não fiz nenhum nem outro. Até pode ser que um professor, um médico, um bombeiro seja herói, mas as circunstâncias, antes do epíteto, devem ser bem avaliadas e, basicamente, estarem fora de sua área profissional.
Elogios pelo bom cumprimento de nossas missões sempre serão bem-vindos, pois muito do que fazemos depende de uma dedicação extra àquela missão, à descoberta ou invenção de um novo viés de execução. É o mérito sendo reconhecido, porque é, grande parte do tempo, resultado de uma dedicação sem par àquele trabalho. A recompensa é, repito, bem-vinda. Mas ninguém deve ser chamado de herói por fazer bem o seu trabalho.
O mais trágico, meus amigos, é que a recíproca não é verdadeira. Se uma dessas funções citadas, aleatoriamente, acima, não for desempenhada com muita garra e desprendimento, o profissional poderá facilmente ser desmoralizado. Vejam se não é um paradoxo bem paradoxal. Se executar com garra o trabalho não é herói, apenas cumpriu sua missão; se fugir a ele, é covarde.

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