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Esta postagem foi publicada em 19 de dezembro de 2017 e está arquivada em Penso, logo insisto.

HIPOCONDRIA

Do Meu Cinicário – Há tanta gente desejando e praticando o bem e o amor, que chego a uma terrível conclusão sobre a persistência do mal e do ódio: imbatíveis! A tensão entre a fanfarrice do maluquete Donald Trump e a do líder supremo do paraíso terrestre chamado República Popular Democrática da Coreia, lembrou-me um pequeno conto meu, baseado em um exame médico real. Divirtam-se!

– Aumentou o meu calibre!

Ela falou assim, de repente, bem no meio da reunião. Todos pararam. Foi um choque. Logo ela!
A Lúcia, sempre amiga, exclamou: “Coitadinha”!

Os outros, mais comedidos, pensaram um pouco, mas concluíram que também deveriam solidarizar-se. Afinal, nunca se sabe quando a gente pode precisar de alguém. Passaram a emitir comentários de apoio, que “isso não poderia ficar assim”, “quem já viu uma coisa dessas?”, “onde a gente vai parar?”, que “isso é coisa dessas bombas atômicas”. O Paulo, mais ligado em atualidades, protestou: “Não se explodem mais bombas atômicas”.

– Explodem, sim. Outro dia eu vi na televisão que, não sei quem, ia estourar umas bombinhas no paiol de monoquíni.

– Irra! Atol de Bikini. Foi a França.

– Não seja metido. Quem é que pode imaginar uma atol usando biquíni (sim, porque pra usar biquíni tem que ser “uma”, né?)? E que é “uma atol”?

Seguiu-se uma longa discussão sobre o que seria “uma atol” e quais os males que seriam causados pelas explosões atômicas.

Nesse meio tempo, ela, que tinha anunciado tão bombasticamente (sem trocadilho) que seu calibre havia aumentado, ficou olhando, desapontada, sentindo-se um verdadeiro canhão de grosso calibre. Ninguém se interessara por aquele fato tão doloroso? Quem sabe o aumento do calibre não era o prenúncio de uma morte próxima? E eles, ali, falando de picuinhas, tipo bomba atômica. Bem que, no início, parecera-lhe ter notado alguma pincelada de carinho por parte de todos eles. Logo em seguida, porém, entraram naquela conversa inútil de bombas. Mas, o que era o mundo diante do seu sofrimento? O que eram alguns bilhões de pessoas? Nada, só perda de tempo.

Nunca mais iria revelar seus íntimos segredos a gente tão insensível. Eles não perdiam por esperar. Um dia ainda morreria de uma doença bem ruim, bem pior do que aquele “tênue aumento do calibre das veias safenas internas, restrito exclusivamente à desembocadura em sistema venoso profundo”. Quando tal acontecesse, aí, sim, eles iam ver se não era mais catastrófico do que uma explosão atômica. Só que, então, já seria tarde!

Enquanto isso, a Lúcia, lá na sua cadeira, continuou pensando: “Coitadinha!

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