Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
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Publicado em 23/02/2018 19:14 | Atualizado em 23/02/2018 21:04 Off

Ter uma história para contar ressignifica o sentido de muitas coisas, especialmente para quem ainda não acumulou milhas suficientes para voar sozinho. Parece simples, à primeira vista, embora este legado leve algum tempo para ser deixado aos nossos “herdeiros”, sejam eles filhos, amigos, colegas de trabalho ou ilustres desconhecidos.

Uma história de vida, de trajetória pessoal ou profissional, um conto de fadas ou de terror, uma simples crônica que relata o cotidiano ou uma existência. Assim construímos o que somos, sem esquecer também a história dos que nos antecederam e assim sucessivamente.

Tudo se reinventa com base naquilo que já existe e é experienciado, relatado, repassado, adquirido, compartilhado, observado, aprendido e ensinado.  O que veio antes de nós também nos pertence e nos transforma; nos acompanha para mantermos a história em memória ou construirmos uma nova, que em ciclos será relato e “conteúdo” (para aplicar um termo muito usado agora, em redes sociais, especificamente, dando genericamente nome ao que, nada mais é, do que aquela velha e boa história que, como repórter e jornalista, aprendi a ouvir e contar em páginas e páginas ao longo de 31 anos de profissão).

O Jornal Panorama tem muito da história e do desenvolvimento, da vida e do cotidiano de toda essa região, impresso em palavras e fotos que ocupariam alguns quilômetros de papel, hoje substituído por essa imagem na tela, onde se lê o que é notícia, ainda que resumidamente, sem grande aprofundamento de alguns temas por motivos que se aplicam à toda imprensa e que gerariam um tratado jornalístico de estudos e análises socioeconômicas, políticas e culturais.

Mas quem está interessado em tratados e em profundidade nesses tempos tão rasos? Sou de uma geração de jornalistas formada sem internet nem celular. Por isso mesmo, aprendemos a ouvir histórias pessoalmente para recontá-las no papel em forma de reportagens, de notícias, de artigos, de crônicas e de coberturas diárias, muitas vezes árduas maratonas em busca da verdade. Apurar um fato era, na maioria dos casos, demorado e difícil, até conseguirmos ouvir todos os envolvidos nos acontecimentos.

Por outro lado, havia a delícia de testemunhar “in loco” tudo o que estava ocorrendo, da ronda pelas Delegacias de Polícia de manhã cedinho até a escolha da Miss Café, da Miss Prainha e do Campeonato Praiano, aos sábados, no Balneário João Martins Nunes. Quem lembra?

Hoje, quando tudo é história sem ter tido tempo de acontecer, não faltam opiniões, fotos, filmagens, discussões, argumentos, brigas e “entendidos” nas mais diferentes áreas, sem nunca terem sido.  O Jornal Panorama não existe mais fisicamente e já são poucos os colegas jornalistas que correm atrás da informação no local do fato, das Hard News (aquelas que todos leem e assistem no café da manhã, mas não admitem), dos boletins de ocorrência que abarrotam os plantões nas DPs espelhando a vida que ninguém vê, da fome e da doença, da denúncia e da investigação, e também das pequenas grandes coisas boas que acontecem diariamente em qualquer comunidade e que nem sempre ganham o merecido destaque.

Sim, hoje são outras histórias que começam a ser construídas de outra maneira para serem recontadas, também, ao seu modo, no futuro, quando os nossos relatos já estejam, provavelmente, totalmente amarelados e roídos por traças em algum arquivo morto.

Assim, chegamos até aqui, virtualmente, com essas palavras que são as mesmas desde sempre, para lembrar da história que precisa ser contata aos que não sabem ou ignorada pelos que já nasceram com asas, mas não sabem voar.

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