Rafael Tourinho Raymundo

Homem de verdade

Por mais que a gente tente respeitar opiniões alheias, às vezes é difícil não se surpreender com comentários infelizes na internet. O mais recente que encontrei dizia algo como “homem de verdade não quer ganhar perfume nem creme de barbear. Prefere furadeira, motosserra e martelo”. Quem me acompanha neste espaço talvez se lembre da coluna publicada em março, na qual falei das várias masculinidades possíveis. Por isso, ver alguém de meu círculo de convívio reproduzindo bobagens relacionadas a gênero é, no mínimo, desanimador.

De qualquer forma, vale analisar o famigerado post. O texto atribui a verdadeira característica masculina a quem gosta de ferramentas. Ou seja: homem que é homem precisa usar a própria força física, associada a alguma técnica, para bater, furar e derrubar coisas. Em oposição, há a categoria dos “não homens” – que, em nossa sociedade afeita a binarismos, podem ser tanto as mulheres quanto os homens “tipo mulher”. No caso, cosméticos e higiene básica são traços femininos, ou pelo menos não masculinos. Portanto, o cara que cuida do cabelo é um homem de mentira e, por extensão, um ser inferior. (Poderíamos ir além e falar da misoginia implícita: se comparar um rapaz a uma dama é diminui-lo, isso significa, em última instância, que a mulher é inferior ao homem.)

Antes que alguém reclame da minha problematização excessiva em relação a uma mera piada, falta mencionar o trecho final da publicação. O autor afirmava: “homem que prefere essas coisas [cosméticos] é homem que gosta de outro homem”. Eu podia sentir a homofobia escorrendo pela tela do computador, ainda mais com os comentários jocosos logo abaixo, os quais nem vale a pena listar aqui.

Nessas horas percebo como deve ser desgastante para um homem heterossexual ter que provar sua macheza na sociedade em que vivemos. Porque, se eu quisesse entrar na discussão do post, bastaria responder que sou fresco mesmo e prefiro mil vezes passar óleo de coco na barba a ter que trocar uma resistência de chuveiro. (Pouco importa o fato de eu já ter trocado resistência de chuveiro na vida, afinal cuidar da beleza e manusear chave de fenda são habilidades que podem coexistir numa mesma pessoa, mas é que a mente tacanha de quem divide os homens entre “de verdade” e “de mentira” não conseguiria lidar com tamanha complexidade.)

Enfim, homossexuais como eu continuam sofrendo violências e preconceitos de toda sorte. Porém, há a vantagem de não termos que demonstrar virilidade o tempo todo. Em contrapartida, quando o menino gosta de meninas, a situação é bem mais complicada. Qualquer detalhe que fuja ao padrão de macho alfa é visto com desconfiança. Tenho amigos heterossexuais, em geral músicos, que relatam isso. Se o homem usa cabelo comprido, veste calça vermelha, abraça os amigos, bebe chá, não gosta de futebol, chora vendo novela ou toca piano, apenas para citar alguns exemplos, logo tem sua sexualidade questionada. Como se existisse uma forma única de exercer a masculinidade. E como se destoar desse molde fosse um demérito.

Sinceramente, essa visão estreita do comportamento humano me dá até preguiça. O que me indigna para valer é descobrir que, em 2022, já nasceram mais de 2,5 mil crianças gaúchas registradas apenas com o nome da mãe. Na expressiva maioria dessas situações, os pais se acham machos o suficiente para engravidar uma mulher, mas não têm coragem de assumir a cria. Acaso isso é ser homem de verdade? Já os feminicídios chegaram a 27 no estado durante o primeiro trimestre. É um aumento de 35% em relação ao mesmo período do ano passado. Em ocorrências assim, homens heterossexuais se valem da força física para subjugar e assassinar as companheiras, numa lógica semelhante à de bater, furar e derrubar coisas. A meu ver, o problema está aí, e não na escolha entre creme de barbear ou martelo.

Por Rafael Tourinho Raymundo
Jornalista e Dr. em Ciências da Comunicação, de Taquara
[Leia todas as colunas]

Os artigos publicados no site da Rádio Taquara não refletem a opinião da emissora. A divulgação atende ao princípio de valorização do debate público, aberto a todas as correntes de pensamento.
Participe: jornalismo@radiotaquara.com.br