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Hospital de Taquara alerta para risco de sobrecarga após mudança nos horários das UBS; Prefeitura diz que impacto não se confirmou

Turno único nas UBS expõe visões distintas sobre organização da rede: Prefeitura cita economia; hospital teme efeitos na porta de entrada
(Fotos: André Amaral/Rádio Taquara)

A mudança para turno único nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Taquara, iniciada no dia 10 de novembro, gerou divergências entre o Hospital Bom Jesus (HBJ) e a Secretaria Municipal de Saúde. Enquanto a direção do hospital teme sobrecarga na emergência, especialmente no atendimento de baixa complexidade que deveria ser absorvido pela rede básica, a Prefeitura afirma que os primeiros levantamentos não apontam aumento de demanda e que a medida tem caráter administrativo, sem impacto direto na porta de entrada hospitalar.

A decisão ocorreu em 3 de novembro, durante a plenária ordinária do Conselho Municipal de Saúde de Taquara, que tratou de atualizações da Secretaria Municipal de Saúde, do HBJ, da terceira etapa da Pré-Conferência Municipal de Saúde e do curso interno de capacitação. A reunião foi realizada na Unidade de Saúde Gilberto Amaral Saraiva, no Loteamento Eldorado, com a participação de 10 das 16 entidades do colegiado, garantindo quórum para deliberações. Também estiveram presentes representantes das Comissões Locais de Saúde dos bairros Cruzeiro/Ronda, Jardim do Prado/Recreio/Sagrada Família, Bairro Empresa e Eldorado, além de moradores da comunidade.

Durante a reunião, a secretária municipal de Saúde, Loreni Spirlandelli, anunciou a adoção do turno único nas repartições públicas de saúde entre 3 de novembro de 2025 e 31 de março de 2026. Nesse período, o atendimento nas UBS ocorrerá das 8h às 14h, de segunda a sexta-feira. O intervalo sem atendimento externo será utilizado para capacitações semanais com toda a equipe da secretaria.

Loreni explicou que alguns serviços manterão o expediente habitual, entre eles o Complexo Municipal de Saúde, que inclui a Farmácia Básica e o atendimento médico de urgência, além do CAPS AD e CAPS II. Ela também informou que o recesso de fim de ano será realizado entre a tarde de 24 de dezembro e 4 de janeiro de 2026, com atendimento mantido apenas no Complexo de Saúde e no SAMU.

Já o atendimento no Complexo de Saúde continuará das 7h à meia-noite, de segunda a segunda feira.

HBJ teme aumento do fluxo

O diretor técnico do HBJ, Yasser Calil, afirma que a principal preocupação é a busca de atendimento na emergência para casos não-urgentes e pouco urgentes, decorrente da redução do horário nas unidades de atenção primária. Segundo ele, o momento de transição na rede e o treinamento dos postos podem gerar sobrecarga no hospital.

“Nesse momento de transição da rede pública de saúde, do treinamento dos postos, o que nos preocupa é uma provável sobrecarga na nossa emergência. Nós vamos atender todos os pacientes que chegarem, vamos acolher todos, mas vamos seguir a classificação de risco. Pela classificação de Manchester, os quadros mais graves serão atendidos primeiro. Pacientes com doenças leves, como resfriados e demais enfermidades que não apresentam risco à vida podem ser atendidas nos postos de saúde ou nas unidades de pronto atendimento”, disse.

Apesar da apreensão, Calil ressalta que o hospital segue operando dentro da capacidade prevista: “Nós não esperávamos a decisão, mas estamos preparados para acolher a população de Taquara sempre”.

Ele também detalhou o funcionamento do protocolo de risco, enfatizando a prioridade clínica e o impacto do fechamento das UBS na procura por atendimentos simples.

“Sobre a classificação de risco: usamos (no Brasil) o Protocolo de Manchester. Pacientes vermelhos exigem toda a atenção da equipe; depois vêm os laranjas e amarelos. Os verdes e azuis deveriam ser atendidos na rede, mas acabam vindo para cá. Eles são atendidos apenas após a estabilização dos casos mais graves. Já há relatos de pessoas que não conseguem marcar consulta antes de janeiro ou março, e até de profissionais da rede sugerindo que vão direto ao hospital. Isso cria ruídos. Vamos atender todos, mas haverá insatisfação pela espera, porque devemos priorizar quem está pior”.

Equipe do HBJ

A diretora executiva do HBJ, Marisete Dal’Molin, compartilha a mesma preocupação e destaca que a decisão da Prefeitura — tomada, segundo ela, sem participação ou conhecimento prévio do hospital — deverá direcionar uma quantidade maior de pacientes à instituição.

“Foi uma decisão unilateral da Prefeitura e da Secretaria de Saúde, assim como ocorreu quando fecharam o complexo da meia-noite às 7h. Mantemos uma boa relação com a Secretaria; não há conflito. Mas percebemos a necessidade de que o hospital participe nessas decisões, porque todo o sistema é integrado. É uma decisão da Prefeitura, motivada por economia, mas não há reforço de médicos ou profissionais para absorver essa demanda. O contrato firmado cobre o pronto atendimento e aquilo a que já nos propomos, mas seguimos preocupados”, disse a diretora.

Marisete reforça que a ausência de uma rede primária funcionando em horário ampliado deverá ser suprida pelo hospital, dificultando o atendimento e, assim, prejudicando toda população.

“Nós gostaríamos de manifestar a nossa preocupação com essa alteração nas UBS. Quando não há uma atenção primária bem estruturada com horário amplo, é preciso se preocupar, porque quem fica doente não tem hora nem dia. Com todas as UBS fechadas no turno da tarde e o Complexo também tendo limite físico, nossa preocupação é que o HBJ receba um número maior de pessoas buscando atendimento do que é capaz de realizar em tempo normal”, afirmou.

Segundo ela, a situação foi encaminhada aos órgãos competentes e compartilhada internamente entre as lideranças técnicas.

“O doutor Yasser tem esse olhar técnico como diretor, e a Marri Andressa Hilbert de Souza, gerente de enfermagem, além da Andrea Haag, coordenadora assistencial do HBJ, que estão na linha de frente da enfermagem, compartilham da mesma preocupação. Não é que não estejamos preparados; estamos. Mas existe o risco real de sobrecarga de serviços e, automaticamente, o atendimento pode ficar um pouco mais lento para quem, na verdade, deveria estar sendo atendido em uma unidade básica”.

“Sobrecarga durante a madrugada não se confirmou”, diz Prefeitura

Diante da preocupação, a Prefeitura enviou à Rádio Taquara uma nota oficial assinada pela secretária de Saúde, Loreni Spirlandelli. O texto afirma que a adoção do turno único nas UBS visa otimizar a gestão e reduzir custos em um período de ajuste financeiro, incluindo economia em energia, manutenção e horas extras. Segundo os primeiros levantamentos, não houve aumento na demanda do Complexo Municipal de Saúde desde a mudança.

A secretaria reforça que os públicos atendidos por UBS e HBJ são diferentes, o que explicaria a estabilidade observada no Complexo. As UBS concentram atendimentos de demanda espontânea, acompanhamentos, programas e consultas agendadas, enquanto o hospital é referência para urgências e emergências e recebe repasses específicos para esse fim.

A nota também afirma que a possibilidade de sobrecarga durante a madrugada não se confirmou. “A avaliação de que a mudança poderia gerar sobrecarga na emergência não se confirmou nos dados técnicos levantados após o fechamento do Complexo de Saúde nesse horário já no ano anterior”, diz o texto.

A Secretaria garante que monitora o fluxo diariamente e que reforçará o Complexo Municipal durante o recesso de fim de ano, caso necessário. A orientação à população permanece: urgências e emergências devem ser encaminhadas ao Hospital Bom Jesus; casos de menor complexidade e consultas preventivas devem ser buscados nas UBS dentro do novo horário.

A pasta também informou que, entre novembro e março, todas as equipes passam por capacitações semanais para qualificar os fluxos internos, sem prejuízo à assistência.

Orientações do HBJ à população

A direção do Hospital Bom Jesus reforça que a população deve observar as três instâncias da rede de saúde antes de buscar atendimento: Unidades Básicas de Saúde, Complexo Municipal de Saúde e Hospital Bom Jesus. A orientação é sempre procurar primeiro a atenção primária ou o pronto atendimento, evitando a sobrecarga da emergência hospitalar.

Com a redução de horários das UBS, o hospital avalia que houve uma reorganização na distribuição das consultas na rede. Por isso, o primeiro passo para casos leves, como resfriados, sintomas gripais, pequenas queixas ou demandas não urgentes, deve ser o contato com os postos de saúde ou com o Complexo de Saúde.

A equipe do HBJ observa ainda que, como a capacitação da rede envolve 13 UBSs, é possível que nem todas as equipes estejam em treinamento ao mesmo tempo. Segundo a administração do hospital, se houver profissionais disponíveis, eles poderiam reforçar o Complexo Municipal para absorver pacientes classificados como verde e azul, conforme o Protocolo de Manchester. Essa, porém, é uma decisão administrativa que cabe exclusivamente ao Executivo, e que, na avaliação do hospital, poderia ter sido discutida previamente, caso a mudança de horário não tivesse sido adotada de forma unilateral.

O hospital também reforça o papel de cada nível de atendimento. O HBJ é especializado em casos graves, como intubação, parada cardíaca, acidentes, infartos e outras emergências de alta complexidade. Já situações de baixa gravidade devem continuar sendo atendidas na rede básica ou no pronto atendimento municipal.