
Primeiro dos seis filhos da dona Celoni Melo da Fonseca, de 70 anos, o igrejinhense Cosme Damião da Fonseca Klein, de 30 anos, buscou nos estudos toda a sua força de vontade para vencer a paralisia cerebral e conquistar seu objetivo de vida: receber o diploma de Administração. A cerimônia ocorreu no último dia 14, em formato on-line, e em EAD pela Ulbra.
O morador de Igrejinha, com paralisia cerebral desde os quatro meses de vida e dependente de uma cadeira de rodas, começou a construir seu sonho aos 11 anos de idade, quando iniciou os estudos no ensino fundamental e, contrariando todas as expectativas, em uma sala de aula regular.
“Não posso falar dessa conquista de hoje sem lembrar do meu ensino fundamental e médio”, observa Cosme.
Frequentando escolas especiais para pessoas com deficiência, o jovem entrou no ensino regular incentivado por sua mãe, Celoni.
“Fui levar a minha neta no primeiro dia de aula e o Cosme foi junto. Quando chegamos, ele viu todas as crianças no pátio e começou a chorar dizendo que queria estudar lá”, lembra a moradora de Igrejinha.
Contrariando o conselho da assistente social, da associação que o menino frequentava, a não matricular o filho em uma escola regular, a mãe de Cosme acreditava no potencial do jovem que, por ser de origem humilde, na época ainda não tinha cadeira de rodas para se locomover.
“Encontrei no lixo uma sem encosto. Tirei o encosto de uma cadeira de alumínio que tinha em casa e adaptei na de rodas. E assim ele ia para a escola. Não faltava um dia. Quando estava chovendo muito, enchíamos ele de plásticos em volta para não se molhar, mas não faltava aula”, relembra Celoni.
Por dois anos a mãe de Cosme foi todos os dias até o colégio, na hora da merenda, trocar a fralda do filho.
Para frequentar as aulas do ensino médio, em outra escola, a partir de 2009, o morador de Igrejinha levava cerca de 30 minutos para chegar até a escola, mesmo com a primeira cadeira de rodas motorizada que recebeu.
Para Cosme, que não quer ser visto como um exemplo de superação, o apoio de sua mãe foi fundamental para que ele conseguisse concluir a educação básica, em 2013, e aos 22 anos pudesse entrar na universidade.
Depois de passar no vestibular para Administração EAD, o estudante conquistou uma bolsa integral de estudos, aproveitando a facilidade que tem para a área de exatas e aplicou toda a sua força de vontade para conquistar seu tão sonhado diploma no ensino superior.
“Não gosto de ser visto como superação ou exemplo. A pessoa deficiente também busca, ao estudar, construir uma carreira e ter estabilidade financeira”, destaca Cosme.
Para assistir as aulas on-line, o morador de Igrejinha ganhou um computador, que foi colocado na cadeira de rodas, instalado em uma tábua de madeira que serviu como mesa improvida por sua mãe. Além das aulas à distância, uma vez por semestre, ao longo dos oito anos de graduação, Cosme teve que ir até a universidade para fazer as provas presenciais.
“E minha mãe ia junto. Ela ficava comigo na sala segurando a folha para não escorregar na mesa enquanto eu respondia às avaliações”, conta o morador de Igrejinha.

Sempre ao lado do filho, foi dona Celoni que ajudou o jovem a enfrentar uma depressão e, após dois anos de faculdade trancada, o convenceu a retomar os estudos.
“Desanimei num período porque achava que não tinha propósito concluir, que nunca ia conseguir trabalhar. Minha mãe abriu um pequeno negócio na frente de casa, que vendia pastel, e me colocou para administrar. Se dizem que eu fui guerreiro, minha mãe foi meu escudo”, agradece Cosme.
Além do diploma de Administração, a nota 10 conquistada no trabalho de conclusão, que teve como tema a inclusão de pessoas com deficiência severa no mercado de trabalho, também foi muito comemorada por Cosme e por dona Celoni.
“Só porque temos limitações físicas, não quer dizer que temos menos capacidade. Ajudei muitos colegas ao longo do curso com conteúdo das aulas”, completa o mais novo graduado em Administração.
Com o diploma em mãos, o morador de Igrejinha já planeja seu próximo objetivo.
“Quero poder trabalhar, constituir família, ter a minha independência. E tenho certeza que a administração vai me ajudar. É uma formação que a gente leva para a vida” projeta Cosme.


